sábado, 14 de dezembro de 2013


A GRATIDÃO NA FAMÍLIA

cap.3  compromissos da gratidão

Acreditava-se que, pelo desenvolvimento das ciências e da tecnologia, o ser humano conseguiria, finalmente, a harmonia e o crescimento moral. Nunca houve tantas conquistas intelectuais e atividades culturais, com tamanhas possibilidades recreativas como nos dias de hoje.

O conforto e as facilidades trazidas pelos instrumentos eletroeletrônicos tem facilitado a vida de bilhões de seres humanos, embora, grande fatia da humanidade ainda esteja na miséria, ou abaixo da linha da pobreza, sofrendo falta de pão, roupa, medicamento, trabalho, educação, e dignidade...

Nunca houve tão grande quantidade de diversões e técnicas de lazer, além das facilidades para os relacionamentos, para a fraternidade, para a harmonia entre as pessoas. Porém isso, não é o que acontece na sociedade da terra, onde sobrepujam a solidão, a ansiedade e o medo como uma epidemia. As doenças, consequentes de somatizações dos distúrbios psicológicos, abatem grande número de vítimas indefesas nas suas malhas sufocantes. Surpreende o grande número dos transtornos de comportamento na afetividade, nas doenças cardiovasculares, do câncer, para citar algumas doenças mais assustadoras.

Desconfiado, resultante do medo que se lhe instala na emoção, esse novo ser humano superconfortado esconde-se na solidão, comunica-se com as  pessoas pelos recursos virtuais evitando o saudável contato corporal enriquecedor.

Os padrões ético-morais, como consequência, alteraram suas formulações e o vale-tudo assumiu o lugar, priorizando o cinismo, o deboche, o despudor, a astúcia. A ânsia pela conquista da fama amesquinha esse indivíduo intelectualizado mas não moralizado, e inspira-o à assumir qualquer conduta que o leve ao estrelato, à posição top, conforme os infelizes conceitos estabelecidos por outros líderes também atormentados.

A moral, a dignidade, o bem proceder tornaram-se condutas esquisitas, ultrapassados pelos entendidos das fantasias do erotismo e da insensatez.

É preciso sobressair-se no grupo social, ser motivo de admiração e inveja, encontrar-se nas alturas, ser inacessível, estar cercado de admiradores, de bajuladores que detestam os ídolos que parecem admirar, lamentando não estarem no lugar deles, que os tratam com desdém e enfado...

No começo, rendem-se a todas as exigências  superficiais para chamarem a atenção, e quando são conhecidos, escondem-se por trás de óculos escuros, perucas, fogem pelas portas dos fundos dos hotéis, para se livrarem dos fanáticos que os aplaudem até o momento em que surgem outros mais enlouquecidos e exóticos...

A anorexia e a bulimia instala-se na juventude ansiosa que se submete aos absurdos programas de emagrecimento para conquistar a beleza física, buscando anabolizantes, implantes, cirurgias perigosas, numa luta sem fim para chegar as metas estabelecidas.

Nesse quadro, a família esfacelou-se, a comunhão doméstica transtornou-se, a sombra coletiva passou a dominar o santuário do lar e a desagregação substituiu a união.

Mães emocionalmente enfermas e imaturas concorrem com as filhas os namorados, repetindo a tragédia de Electra, e pais saturados de gozo entregam-se ao adultério na busca de destaque no grupo social que os elege como dignos de admiração.

O desrespeito cresce, originando-se nos pais que consideram os filhos uma carga que lhes dificulta a mobilidade nas áreas insensatas do prazer ou como forma narcisista de exibição, esperando que deem continuação aos seus disparates ou expondo-a, desde cedo, em caricaturas de adultos nos programas de TV e de rádio, de teatro e de cinema, em lamentáveis processos de transferência frustrante dos próprios fracassos.

O ego sobressai-se, perverso em todas as ações, e a ingratidão marca a maneira de ser de cada um. Pensa-se apenas no interesse pessoal, mesmo que a prejuízo dos outros, e a competição desleal arruína os relacionamentos, marcados, com raras exceções, trabalhados pela hipocrisia e pela animosidade mal disfarçada.

Nesse momento, a traição, o descaso por aqueles que auxiliaram no começo da jornada, a ingratidão apresenta-se de forma assustadora.

Mas a ingratidão é doença da alma que precisa de tratamento urgente nas suas nascentes.

O ingrato é alguém que perdeu o endereço da felicidade e, perturbado, perde-se por caminhos equivocados.

Ninguém nasce grato, nem consegue a gratidão de um momento para outro.

Aprende-se gratidão com a prática, que deve começar na família, essa sociedade em miniatura, onde a afetividade apresenta-se com naturalidade. 

A família não é apenas o grupamento doméstico, mas a reunião de Espíritos reencarnados com programa de evolução espiritual estabelecido anteriormente.

Diante da condição imposta pelas leis da vida, quase sempre não se tem a família que se gostaria, aquela constituída por pessoas afáveis e generosas, mas o renascimento ao lado dos Espíritos que se necessitam uns aos outros para o processo da evolução.

Muitas vezes, alguns grupos familiares transformam-se em praças de guerra em contínuos combates, em que cada um reage contra o outro ou detesta-o, longe do compromisso de reabilitação e de identificação pessoal.

É nesse difícil núcleo que o Espírito deverá desenvolver-se, transformar os maus em bons sentimentos, exercitando a fraternidade e a gratidão.

Conseguir a prática da gratidão em relação aos familiares hostis é um desafio à sombra pessoal dominante no clã...

Nem sempre se conseguirá o melhor resultado, porém, criado o hábito de compreender o outro, tendo-o na condição de enfermo ou necessitado, transforma-se em método eficaz para o desiderato.

Quando se enfrentam obstáculos mais graves, mais amplas conquistas se assinalam, após vencidos.

No lar, essas dificuldades devem favorecer o sentimento de gratidão pela chance de resgatar débitos anteriormente adquiridos, desenvolvido a paciência, exercitado a tolerância e a compaixão, aprimorando o self.

Do lar, os sentimentos de amizade e de compreensão ampliam-se na direção da sociedade, que é a grande família onde todos deverão unir-se para a construção da felicidade coletiva.

Quando, os desafios apresentem-se quase insuportáveis, um poema de alegria deve ser entoado no íntimo, daquele que busca o triunfo, aceitando as circunstancias, às vezes perversas, alterando-as uma a uma, para melhor.

Lutas desse padrão elevam o ser humano à condição enobrecida de criatura integral, ajudando-a a desenvolver o deus interno, que necessita dos estímulos fortes, tanto interiores quanto externos para romper o casulo do ego e insculpir-se no self.

Para o sucesso do empreendimento, o amor e a gratidão constituem as forças dinâmicas ao alcance do lutador.

Ninguém é impermeável ao amor, a um gesto de bondade, à gratidão sincera.

Uma família gentil e harmônica, e existem incontáveis que o são, já é, em si mesma, um hino de louvor, de gratidão à vida. Mas aquela que é turbulenta e trabalhosa transforma-se em teste de resistência ao mal e a porta que se abre ao bem, aproveitando os inestimáveis valores oferecidos pela ciência assim como as bênçãos da tecnologia para instaurar na Terra, desde hoje, os degraus do mundo melhor de amanhã.

Nenhuma sombra individual e coletiva construídas ao longo do processo evolutivo sobrevive, antes se integram mediante a gratidão no eixo do self em equilíbrio.

Os resultados inevitáveis dessa conquista logo se manifestam: cura dos desajustes e das doenças, surgimento da saúde integral, da alegria de viver, do bem-estar, conquista do numinoso.

A gratidão no lar anula o individualismo egóico, preservando a individualidade que alcançará a individuação.

Postado em 02/09/2013.

O MISTERIO DO ENCONTRO E SEUS DESAFIOS

(continuação)

 

Dentro das diversas fantasias que nossa infantilidade produz, uma em especial é alimentada e reforçada culturalmente há séculos: o casamento como a busca do paraíso perdido. Jogamos para o outro a responsabilidade da nossa felicidade e concebemos o casamento como uma  obrigação do outro em preencher minhas expectativas, uma imagem do sonho dourado onde o outro me completa. Ninguém pode dar felicidade para ninguém, pois a felicidade é uma questão de postura existencial. Podemos dar educação, amor, informação, apoio, etc, mas não a felicidade!

Joanna de Ângelis assevera que “todo relacionamento conjugal ou compromisso afetivo é um investimento emocional, correndo o risco de não se coroar da satisfação que se espera auferir” (O Despertar do Espírito,p.145). Quando colocamos a obrigação da nossa felicidade no outro estamos confundindo duas coisas: primeiro a função do casamento, segundo a ideia de felicidade.

Primeiro, o casamento do ponto de vista psicológico e espiritual não é para satisfazer nossas necessidades egoístas, não é para criar um bem-estar ou ter no outro uma muleta psicológica. Todos os processos da vida são possibilidades para alcançarmos a individuação, o ser humano pleno e integrado. A meta da individuação é o salvamento da alma. O casamento tem então como finalidade gerar um caminho de salvamento para a alma. Quando duas pessoas se unem, elas são desafiadas a um processo de superação, conhecimento e desenvolvimento espiritual. Isso exige sacrifício e entrega, sacrifício no sentido etimológico da palavra que significa o “sacro ofício” o trabalho sagrado.

Segundo, a felicidade na nossa sociedade materialista é confundida com bem-estar. O bem-estar encontra-se associado com o evitar tensões desagradáveis,  em usufruir sensações de conforto, relaxamento, prazer e satisfação dos desejos. Ter coisas, evitar a dor, o sofrimento e a doença. Uma ideia de satisfação egoica. A individuação e, consequentemente, o casamento, está comprometida com a ideia de salvação, de busca e realização espiritual. E essa busca exige luta, esforço, aprofundamento e capacidade de suportar para poder se transformar. Uma proposta criativa de diálogo com a vida. Desse modo, o casamento não se associa ao bem-estar do eu, mas a uma felicidade maior, espiritual, que é a conquista real de si mesmo e a vivencia plena do amor.

Ampliando o tema para além da relação conjugal, na qual cada relação oportuniza um encontro, encontramos aí o fundamento da existência.  A imagem que temos da realidade atualmente nos é dada pela ideia de rede. Uma rede de relações em que todas as coisas são chamadas a cooperar. Podemos dizer que tudo é encontro. E é nesse jogo de encontros que estabelecemos a dinâmica da vida. Mas se tudo é encontro, importa então então saber o que resulta desse encontro. É o resultado que vai nos dizer se o encontro foi bom ou ruim. O que é um bom encontro ou mal encontro?

Existe uma potencialização das diferenças que incidem umas sobre as outras. E através do embate das diferenças e na força aglutinadora das simpatias que nos problematizamos e crescemos. É pelas diferenças que se pode iniciar um efeito desestabilizador sobre nós. Quando as potencias de cada ser são fortalecidas e renovadas para melhor, então dizemos que foi um bom encontro. Para Ângelis, “o bom relacionamento é aquele que resulta do contato que inspira, que emula e que proporciona bem-estar.” Livro O Despertar do Espírito, p.149 Quando o encontro gera desestabilização das minhas forças criativas, promovendo uma desordem que me fragiliza, então temos um mal encontro. Desse modo, como nos assevera Joanna de Ângelis, todo relacionamento deve enriquecer aqueles que se encontram envolvidos, favorecendo a identificação de metas e meios para serem conseguidos.

Voltamos agora para a proposta de Jung, segundo a qual a objetividade garante um verdadeiro relacionamento. Com objetividade queremos afirmar a necessidade de conhecer o outro e a mim mesmo para que haja um bom encontro. Devemos conquistar a capacidade de perceber a nós e ao outro e para o melhor modo de perceber, temos de ver quais os meios para conseguirmos nosso fim. Em resposta a essa busca de objetividade e busca de fim, que é o bom encontro, podemos resumir as seguintes etapas:

1ª – temos de conhecer a natureza das pessoas e a nossa, para aperfeiçoá-la.

2ª – temos de criar a capacidade de deduzir as diferenças e as concordâncias entre os elementos envolvidos na relação.

3ª – temos de ver o que cada pessoa pode sofrer com o contato.

4ª – temos de associar esses elementos com a natureza e a potencia das pessoas.

Por ser muito extenso, o presente texto terá continuidade na próxima postagem. Postado dia 14/12/13

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013


COMPROMISSOS DA GRATIDÃO

NO INCOMPARÁVEL SERMÃO DA MONTANHA, APÓS o canto sublime das bem-aventuranças, Jesus enunciou com sabedoria e vigor:

“Amai aos vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque Ele faz nascer o Seu Sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos” (Mt. 5:44-45)

A recomendação incomum proposta pelo psicólogo incomparável surpreende, ainda hoje, a todos que mergulham o pensamento na reflexão em torno dos textos escriturísticos que evocam a sua palavra.

A orientação tradicional refere-se a resposta ao mal com o mesmo mal, e hoje ainda continua essa conduta enferma em muitas legislações enlouquecidas, impondo punições  cruéis com àqueles que são surpreendidos em erro, afastados da justiça e da reeducação do criminoso, que são fundamentais.

Nos relacionamentos familiares, sociais, profissionais e artísticos, como em outros, a conduta retributiva é firmada na injusta conduta ancestral diante dele, que se encontra no inconsciente individual e coletivo, originando graves transtornos pessoais e sociais.

O tratamento dado ao perverso  não deve negligenciar dos seus atos vergonhosos, o que não se deve é agir da mesma forma, aplicando penas conforme seu nível primitivo de evolução, sendo justo oferecer meios de reparar os prejuízos causados,  recuperar-se diante das suas vítimas e da própria consciência,  reintegrar-se na sociedade...

Essa atitude, a de dar oportunidade para agir com equilíbrio, caracteriza-se pelo perdão às suas atitudes arbitrárias, porém sem conivência com o seu delito, mas também sem cerceamento da graça do amor que retira o criminoso da masmorra sem grades em que se aprisiona, conduzindo-o à sociedade que foi ferida e espera a cooperação para ser cicatrizada, superando a sua crueldade.

De certa forma, a proposta de Jesus, no que se refere ao amor em retribuição ao mal, é também a maneira psicológica saudável da gratidão, pelo propiciar a  vivência da abnegação e da caridade. Sem querer dizer silenciar o deslize praticado, mas reconhecer que este faz surgir e expandir os sentimentos superiores da compaixão e da misericórdia que devem estar presente nos indivíduos e nos grupos sociais.

A gratidão é a mais sutil psicoterapia para os males que se instalam na sociedade constituída em grande parte por Espíritos enfermos.

Quando alguém consegue ofertá-la com espontaneidade e sem ostentação, produz um clima psíquico de harmonia que o beneficia e aos que o cercam, porque não ressuma a revolta ou a queixa sistemática...

A gratidão deve tornar-se um hábito natural no comportamento maduro de todos os seres humanos. Para a conseguir, é necessário treinamento, e exercício diário, em razão da sombra vigilante que conduz à conduta da distância, da indiferença ou mesmo da ingratidão.

O ingrato, além de imaturo psicológico, é vítima da inveja, da competitividade doentia, do primarismo evolutivo.

A ingratidão fortalece nos grupamentos sociais onde predominam o egoísmo e a sordidez.

O grande desafio da existência é o de bem viver-se e não o  viver-se bem, entulhado de coisas e buscando novas conquistas entre sofrimentos íntimos e desconfianças angustiantes. Nesse sentido, é grata a recomendação de Jesus, convocando ao amor mesmo em relação aos adversários, porque eles, sim, são os doentes, pois que elegeram as atitudes agressivas e destrutivas, acumulando resíduos de inconformismo e de ira, que acabam  produzindo-lhes lamentáveis somatizações.

Quando se consegue não devolver o mal na mesma morbífica moeda, o self  alegra-se e o seu eixo com o ego diminui a distância separatista, propiciando a diluição lenta de suas fixações. Quando se consegue amar o adversário, lembrá-lo sem ressentimento, ter compaixão da alienação em que vive, todo um contingente de arquétipos perturbadores cede lugar às emoções saudáveis, que trazem alegria de viver e de lutar, estimulando o crescimento interno e a sua contínua ascensão ideológica.  

Não sendo vitalizado pelo rancor, o ódio autoconsome-se, não encontrando revide, a ofensa perde o seu significado, e não se retribuindo o equivalente mal que lhe foi dirigido,  desaparece.

Opor-se e resistir ao mal fortalece a energia deletéria que é enviada, porque oferece ressonância vibratória e, no revide, recebe a potência da resposta. Não valorizar o mal nem lhe atribuir sentido é a maneira mais eficaz de culminar amando os agressores e os perversos.

Uma observação rápida da natureza percebe-se a força da gratidão vibrante em toda parte.

A tempestade castiga a terra e quebra tudo que encontra ao alcance, espalhando o medo e a destruição. Logo que passa, a vida renova a paisagem, recompõe a flora e a fauna, traz de volta a beleza, num ato de gratidão à ocorrência agressiva.

O solo trabalhado pela enxada bem acionada agradece ao lavrador que o feriu, reverdecendo, transformado e cheio de vida. Mesmo a erva má que cresce no lugar também agradece, envolvendo-se de flores na primavera.

Nem sempre, porém, o ser humano consegue viver a psicologia da gratidão. Pode iniciar o dia em júbilo e gentileza, conforme as horas passam e ocorrem os acontecimentos no convívio familiar, no trânsito, no trabalho, passa a agir com impulsos agressivo-defensivos, seguindo a correnteza dos desesperados... Outras vezes, antes de dormir está disposto e grato, comunicando alegria vindas dos acontecimentos. Apesar disso, fenômenos oníricos perturbadores, momentos de insônia, distúrbios gástricos tomam-no e, ao acordar, o mau humor toma-o, tornando seu dia desagradável e seu comportamento estranho.

Tudo isso é natural, porém passado o fenômeno perturbador, é necessário que se volte às atitudes gratulatória anteriores, insistindo-se sem desânimo para automatizá-las, para que permaneçam mesmo nos momentos desafiadores e desconfortáveis.

Há um hábito no ser humano de recordar os insucessos, os maus momentos, as contrariedades, as tristezas e as agressões sofridas em desconsideração das muitas alegrias e benefícios que são deixados em plano secundário na memória. Esse comportamento produz o pessimismo, a queixa, o azedume, a depressão.

Uma reflexão rápida seria suficiente para transformar aqueles acontecimentos enfermiços, ricos de más lembranças, em motivo de gratidão, pois, embora os acontecimentos desagradáveis, a existência modificou-se totalmente, sobreviveu-se a tudo, vieram êxitos, as experiências iluminativas, amizades gentis, aconteceram fatos positivos não esperados...

Gratidão, por todos os acontecimentos, deve ser a atitude mental e emocional de todos os seres humanos.

A estrada da vitória é feita por equívocos e acertos, tropeços e corrigendas, sendo, o mais importante a conquista do nível que cada qual tem em mente.

Perseverando-se e treinando-se gratidão, o sentido de liberdade e de infinito apossa-se do self que se torna numinoso, portanto, pleno.

Trabalho do livro Psicologia da Gratidão, Divaldo Franco, Espírito Joanna de Ângelis.

Postado dia 11/12/13

PROPOSTA FRENTE AO EGOÍSMO

(continuação)

Estas reflexões talvez pouco acrescente ao empenhado estudante da Doutrina Espírita ou aos atentos e interessados na Psicologia espírita. O nosso propósito não é o de criar uma teoria inovadora, e nem está ao nosso alcance. O objetivo deste capítulo, como ressaltamos inicialmente, é discutir as implicações destes conceitos espíritas pela perspectiva psicológica. E a principal reflexão baseia-se no entendimento de que a solução dos sofrimentos não se encontra no próprio sofrimento, pois são apenas sintomas da estrutura psíquica que se encontra pervertida, alienada ou adoecida.

Existe no ser humano uma tendência imediatista (desejo único de prazer imediato) a querer eliminar aquele sintoma – o problema. Esta forma de pensar o homem é ainda muito presente nas instituições, como uma visão somática, buscando o tratamento daquilo que se vê, e não efetivamente da estrutura que produz este desvirtuamento. Muitos indivíduos que sofrem buscam a terapia, a psiquiatria ou o centro espírita na expectativa de que alguém “tire dele este problema”. Por exemplo, muitos quem sofrem de depressão almejam um remédio para sua “cura.” Outros que tem problemas de convívio familiar desejam ‘apenas’ que o cônjuge ou os filhos mudem para ter seu problema resolvido... O raivoso quer uma técnica para ser calmo... O medroso quer que lhe deem uma fórmula para ter coragem... E isto se estende ao ciumento, ao invejoso, ao orgulhoso, etc. Ainda há os ansiosos que se tornam dependentes de psicofármacos, pois ‘eliminam’ seu mal-estar...

Em todos estes quadros extremamente comuns encontramos um pedido para que seja assumida essa demanda das pessoas de “resolver o problema delas como se não fosse delas”.

À medida que assim for feito, se estará efetivamente contribuindo para a estagnação moral daquele que sofre. Pois a partir disso, conclui-se então que aquele que pede ajuda não tem qualquer implicação com aquilo de que se queixa; e mais do que isso, aprende que precisa do Espiritismo apenas para se livrar dos problemas. Assimila que quando surgir outro problema, lá estarão, para que resolvam o novo problema, afinal, aprendeu que este sofrimento não é realmente de sua responsabilidade.

Provavelmente este indivíduo que busca a casa espirita nas suas aflições, se não for bem esclarecido, orientado e estimulado, não vai aderir a proposta psicoterapêutica do Espiritismo que se pauta na transformação de si. Não se vinculará aos estudos, não fará o Evangelho no Lar, não compreenderá efetivamente as atividades espiritistas, pois não conseguirá fazer a correlação da sua queixa com toda a proposta doutrinária.  Não entenderá que seus sofrimentos estão intimamente ligados a sua forma de ver e viver a vida (seja no presente ou no passado que se faz presente). E certamente não é condenatória a sua postura, afinal somos nós que precisamos esclarecê-lo e envolvê-lo neste novo caminho. (nota do autor)

Para esta parcela da população, se aparecer um médico espírita que faz receitas, ou um médium que faz “curas espirituais”, ou um “passe forte”, os encontraremos, às vezes, formando uma multidão que apenas busca alguém para resolver aquele problema que porta, mas que não identifica como seu. E evidentemente que se não der certo a culpa já terá destinação exata: o médium, o psicólogo, o psiquiatra ou o centro espírita não souberam o que fazer. Não terá coragem de questionar o que fez para que estivesse assim, muito menos desejar uma modificação interna. Não quer a transformação, quer apenas aliviar o sofrimento, e com isso, gera mais sofrimento.

Sendo assim, o tratamento de nossos sofrimentos, acima de qualquer instância, deve buscar o enfraquecimento do egoísmo. Vejamos o que os Espíritos esclarecem a Kardec na resposta à questão 917:

O egoísmo se enfraquecerá a proporção que a

vida moral for predominando sobre a vida material e,

sobretudo, com a compreensão, que o

Espiritismo vos faculta ao vosso estado futuro

real, e não desfigurado por ficções alegóricas.

Quando, bem compreendido, se houver identificado

com os costumes e as crenças, o Espiritismo

transformará os hábitos, os usos, as relações sociais.

(KARDEC, 2009, p. 284)

 

Enfraquecimento do egoísmo não pressupõe, como já esclarecemos e reforçamos, o enfraquecimento do ego, e sim o seu equilíbrio. Também ressaltamos que estas palavras não enfocam o combate ao egoísmo como se fosse possível eliminá-lo de uma hora para outra e, por consequência, o homem seria feliz num mundo de provas e expiações. Falam, por ora, de enfraquecê-lo à medida que potencializamos o ego com a vida moral.

O que seria então a vida moral? Já avaliada a questão da moralidade, resta-nos apenas acrescentar que a moral encontra-se dentro do ser humano, em gérmen, latente, ou como preferem os Espíritos, na consciência de cada ser humano. Esta moral advém do Self, o Eu Superior, ou Si, equivale dizer, a parte divina do ser.

Então, se o ego é o centro da consciência, o Si ou Self é o centro da totalidade. (representa tanto a imagem divina como a própria realidade do Espírito, nota do autor) Para melhor compreensão, podemos afirmar que a psique tem dois centros, um é o ego e o outro é o Self.

Alguns analistas junguianos afirmam que o ego está subordinado ao Si-mesmo, assim como o homem a Deus. A infelicidade do ego é pensar que é rei, senhor de toda a casa, sem entender ou aceitar que é apenas um servidor, e que encontrando e aceitando seu papel, poderá ser um ótimo servidor, mas nunca o senhor.

Interessante constatar que o senhor precisa do servidor para realizar seus feitos, e da mesma forma o servidor também precisa do senhor para lhe manter. O estado de adoecimento do ego poderia ser representado pelo servo que, por excesso de si mesmo, concluiu que não precisa de senhor nenhum, perdendo-se em si mesmo. O que estes estudos nos ensinam é que não podemos nos perder no ego, mas também não podemos nos perder dele.

Então como conseguir perceber este verdadeiro papel que não é o de senhor e que não pode suplantá-lo? Vejamos o que dizem os Espíritos na continuidade da resposta:

O Espiritismo, bem compreendido, mostra as

coisas de tão alto que o  sentimento da personalidade

desaparece, de certo modo, diante da imensidade.

Destruindo essa importância,

ou, pelo menos, reduzindo-a às suas legítimas

proporções, ele necessariamente combate o

egoísmo. (...) Que o princípio da caridade e da

fraternidade seja a base das instituições sociais,

das relações legais de povo a povo e de homem

a homem, e este pensará menos na sua pessoa,

quando vir que os outros pensam nele; sofrerá

assim a experiência moralizadora do exemplo e

do contacto. Em face do atual transbordamento

de egoísmo, é preciso verdadeira virtude

para que alguém renuncie à sua personalidade

em proveito dos outros, que, quase sempre não

o reconhecem. (KARDEC, O Livro dos Espíritos p.284)

Eles, os Espíritos, nos dizem que ‘o sentimento da personalidade desaparece’, isso quer dizer que o caminho não se fundamenta na destruição do ego, e sim na eliminação deste sentimento exacerbado. Ou seja, na avaliação equivocada que este ego faz de si próprio, da importância desmedida a que se atribui, colocando-se no centro de tudo.

Quando nos conscientizamos, através da Doutrina Espírita, do estado futuro real, explicitando as questões existenciais “de onde viemos e para onde vamos”, começamos a perceber a vida por outra dimensão. Sabemos fruto do passado, com destino à perfeição, entendendo que todas as experiências e situações que a vida nos ofereceu são apenas matéria-prima para a construção interna, e que de fato nada temos de exterior, pois tudo pode nos ser tirado a qualquer momento. Pensamos também sobre aquilo que realmente nos espera e que não está pautado nas conquistas materiais, nas alegorias egoicas do materialismo – fundamentado no ter, na posse, e no valor a partir daquilo que a pessoa apresenta ou demonstra. Ao nosso entendimento, por este percurso o ego começa a encontrar seu verdadeiro lugar no mundo.

É como se o ego não conseguisse gerenciar seu mundo – a consciência – devido aos parâmetros equivocados que elegeu (ou talvez, que lhe estavam disponíveis). Seria exigir de uma pessoa de cultura pré-letrada a habilidade da escrita. Pode ter possibilidades, potencial, mas apenas com uma nova referencia é que fará uma construção efetiva. Dessa forma, entendemos que o ego precisa de parâmetros mais saudáveis, mais adequados à realidade, em contraponto àqueles que o materialismo tem oferecido.

Angelis no livro O Ser Consciente, no item Dificuldades do Ego, aponta-nos que a conscientização da transitoriedade da vida física conduz o ser ao cooperativismo e à natural humildade, tendo em vista as realizações que devem permanecer após o seu desaparecimento orgânico.

Retomando Joanna de Ângelis, no livro Entrega-te a Deus, também compreendemos este pensamento, pois na razão direta em que o Espírito desabrocha a consciência e a perfeita lucidez em torno dos objetivos essenciais da sua existência na Terra, o egoísmo vai diluindo-se e cedendo lugar à solidariedade, por facultar a vivencia das emoções mais elevadas, aquelas que santificam o ser no exercício da autêntica caridade.

A Doutrina Espírita oferece grandes contribuições neste sentido, mostrando que somos herdeiros do Universo, como diz o poeta, porém, ninguém o é mais do que o outro. O equilíbrio do ego se encontra entre a pequenez que lhe define e a divindade que lhe é possível.

É preciso, por fim, “reconhecer-se imperfeito, como realmente se é, portador de ulcerações e de cicatrizes morais; é um ato de humildade real, que se deve manter com dignidade.” ANGELIS, no livro Em Busca da Verdade p.26

A conscientização da imperfeição humana e da efemeridade da vida física conduz efetivamente o indivíduo à humildade, reconhecendo a transitoriedade das condições materiais, a constante impermanência dos cargos, das classes, das posses e tudo o mais em que o ego adoecido se apoie para justificar-se senhor.

Portanto, no dia em que assumirmos nossa pequenez ante a magnitude divina, aquele ego enganado conseguirá abrir espaço para a presença do Self, e então, não mais separados, promoverão o processo de cristificação, imortalizada na frase do grande apóstolo do Cristo “Eu vivo, mas não mais eu: o Cristo é quem vive em mim”.

Final do texto e também final do capítulo10, A NASCENTE DOS SOFRIMENTOS:UMA ANÁLISE DO EGO, escrita por Marlon Reikdal, no livro Refletindo a Alma. Postado dia, 11/12/13.

A FATALIDADE DA MORTE (continuação)

Ocorrências cruéis sucedem com indivíduos portadores de inteligência e de beleza, mas que pertencem a etnias e raças consideradas inferiores, sendo obrigados a sorver o amargo fel do preconceito e da perseguição inclementes.

Sucessos e insucessos de toda ordem afetam as criaturas humanas, como se fossem frágeis marionetes ao capricho do absurdo, que se manifesta inesperadamente, a uns elevando ao êxtase da felicidade e a outros, ao abismo da miséria e do abandono.

Gênios do pensamento e da arte, da ciência e da cultura, repentinamente são vítimas de fenômenos infelizes e vencidos por acidentes vasculares cerebrais, perdem o contato com o mundo de beleza a que se acostumaram ou que edificaram e não mais o podem fruir.

Igualmente sucedem, a cada instante, a incontáveis pessoas, outros tipos de acidentes automotores, choques e quedas, incêndios e desabamentos nos quais os sentidos físicos são danificados, quando não deixam sequelas profundas na psique, que se desconecta da realidade e foge para o ouvido de si mesmo ou para os delírios sem sentido das alucinações...

Considerando-se que a presença do sofrimento em todos os segmentos da sociedade é normal, qual seria, o sentido da vida, além disso?

Nada obstante, o ser espiritual, vencedor de mil embates, em cada dolorosa vivencia aprimora-se mais, adquire mecanismos de defesa, robustece a confiança nos valores ético-morais, experiência as gloriosas possibilidades que lhe dormem no íntimo.

Herdeiro das próprias realizações é o artífice da saúde e da doença, da sabedoria e da ignorância, responsável pela sombra, pelo anima-us, pelo ego que se devem fundir num eixo equilibrado com o Self, que os precede e os sobrevive.

O prosseguimento da inteligência e do pensamento além da esfera carnal representa o mais extraordinário sentido existencial, pelo abarcar de todas as expressões da emotividade e dos outros demais sentimentos.

Tendo-se em mira esse significado, mais exequível se torna viver, seja em qual situação ou circunstância for, por saber-se que é temporária e breve a jornada carnal, portadora de finalidade educativa, psicoterapêutica, responsável pelo engrandecimento do si-mesmo.

Com esse equipamento, a certeza da imortalidade faculta que todos os fenômenos humanos adquiram lógica e possam ser compreendidos como edificantes, portadores de futuro bem-estar e de harmonia.

Atavicamente, porém, o medo da morte e do aniquilamento permanece como um arquétipo terrível e ameaçador, herança do período da caverna, quando ocorria o fenômeno que não era interpretado pelo homem primitivo, que via o outro ser decompor-se, tresandar podridão e não mais voltar ao convívio... Sem a capacidade de discernir, o culto do sepultamento desenhou-se-lhe no Self, dando lugar às superstições compatíveis com o nível evolutivo e gerando no inconsciente profundo o horror da ocorrência não compreendida.

Apesar disso, foi na intimidade dessa mesma caverna que as almas aflitas ou não daqueles que sucumbiam ao fenômeno da morte, retornavam, apavorando ou aparentando poder, que proporcionaria ao pensamento mítico a concepção dos deuses, iniciando-se lentamente a compreensão do fenômeno post-mortem e dos gênios bons e maus, dos deuses nobres e viciosos...

A longa jornada atinge, na atualidade, a concepção da Divindade fora dos padrões convencionais em forma de objetivações materiais, aprensentando-se como a Causa Incausada, a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas...

A morte, portanto, ao invés de temerária, é o veículo que conduz o ser imortal ao seu destino, proporcionando-lhe, quando terminado os renascimentos carnais, a total conquista do Self, do numinoso, da individuação, da felicidade plena e sem jaça.

Por fim, como escreveu Jung estudando e observando idosos na quadra terminal: ...a psique inconsciente faz pouquíssimo caso da morte.

Prosseguindo, ainda, no tema, elucidou: É necessário, pois, que a morte seja alguma coisa relativamente não essencial... A essência da psique estende-se na obscuridade muito além das nossas categorias intelectuais.

O encontro com a verdade liberta o ser da ignorância e integra-o totalmente na vida.

Desse modo a busca da verdade não deve cessar, pois a cada instante ei-la que se apresenta grandiosa e deslumbrante.

Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (Paulo aos Coríntios 1:15 – 55) .

Final do texto, final do cp.10, A VIDA E A MORTE, do livro EM BUSCA DA VERDADE, escrito por Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis. Postado dia, 11/12/13.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013


O SER MADURO PSICOLOGICAMENTE E A GRATIDÃO

 

À medida que os sentimentos superiores de alegria e  gratidão tomam conta do indivíduo, curam-se os males que o angustiam no caminho da imaturidade psicológica, deixando-o livre dos conflitos que prejudicam o comportamento, buscam aprofundar a perspicácia, a sabedoria, a compreensão da vida e da sua finalidade.

Tudo que antes era desafiador, passa a ser continente conquistado, se ampliando para o infinito por descobrir e incorporar ao patrimônio interno.

Os melindres e manifestações de criança maltratada agora superados, tomando lugar a confiança em si,  o respeito pelos outros, a consciência dos atos. Vence as anteriores síndromes de desconforto íntimo, que agora trazem a espontânea alegria de viver e de lutar.

A calma substitui a ansiedade que causava desequilíbrio emocional, a bondade e-lhe  natural, como se fosse uma luz a irradiar sem ostentação, e o indivíduo passa a ser centro de convergência de interesses das pessoas.

O ser imaturo psicologicamente não venceu a infância que foi transferida para a idade adulta com toda a carga de conflitos não resolvidos que se manifestam no relacionamento, escondendo a personalidade insegura e doentia.

A ambivalência do comportamento, desejar e não fazer, pensar e desistir, é efeito dessa imaturidade, expressando não saber agir corretamente mesmo na  afetividade.

“Deverei dizer que amo? E se for incompreendido?” – é um dos pensamentos ambivalentes no ser imaturo, sempre retardando as atitudes psicológicas saudáveis, pelo medo da opinião alheia. Embora, durante uma crise emocional, não tenha pudor em dizer: “Eu detesto o mundo e não quero ver ninguém na minha frente!”

O processo de amadurecimento psicológico avança com a facilidade de expressar gratidão por tudo que ocorreu e o que venha a acontecer ao ser humano.

Ninguém é totalmente autossuficiente, exceto os narcisistas, que se consideram especiais na criação, o que significa imperiosa necessidade de parceria, de acompanhamento, de dependência, razão porque é um ser gregário desde os primórdios da evolução. Essa parceria e dependência, porém estarão em nível de companheirismo, de trabalho de ajuda recíproca, de cooperação e não de submissão.

Duas crianças, de sete e oito anos, respectivamente, iam em direção da escola fundamental sem exprimirem uma só palavra, cada uma em seu  mundo infantil. Porém a mais velha estava vivendo um grande conflito já que não conseguia boa comunicação com os colegas, estava sendo discriminada pela origem humilde, pela cor da pele...

Pararam, antes de atravessarem a rua, porque o semáforo estava com o sinal vermelho. Quando o sinal muda para verde, ambas crianças avançaram, mas a sacola cheia de livros e de cadernos do mais velho abriu-se e alguns deles caíram, obrigando-o a abaixar-se irritado e reuni-los outra vez. O menorzinho, vendo-o em apuros, aproximou-se, abaixou-se também e perguntou-lhe, enquanto agia:

- Posso ajudá-lo? Eu gosto muito de você...

Os dois sorriram e foram conversando na direção da escola.

Vinte e cinco anos depois, quando um cidadão afrodescendente atingiu o topo administrativo de uma grande empresa, sendo elogiado, afirmou no discurso de agradecimento:

- Eu devo a minha vida a um garotinho de 7 anos, que um dia me ajudou a guardar livros e cadernos que me haviam caído da sacola ao atravessar uma rua e disse que me queria bem...Naquele dia eu havia resolvido suicidar-me, mas o seu gesto inocente e jovial modificou totalmente a minha vida. A ele, pois, eu sempre agradeci haver sobrevivido, e agora agradeço novamente por haver chegado ao posto em que me encontro, e, por antecipação, por tudo mais de bom que me venha ou não a acontecer...

O sentido de parceria, de acompanhamento e de dependência no grupo social, não se se refere aos conflitos e aos medos de crescimento, mas a uma necessidade de ajuda recíproca, de participação no grupo social, de vida em ação, de união de interesses em favor de todos e, por consequência, pela sociedade, pelo ecossistema, pela indescritível alegria de viver.

Quando Confúcio anunciou a frase “Aja com bondade, mas não espere gratidão”, queria demonstrar que os sentimentos nobres devem estar envolvidos de renúncia, sem os interesses imediatistas da compensação, do aplauso, da admiração dos outros.

A gratidão, por isso, tem caráter de amadurecimento psicológico, porque aquele que assim age descobriu que tudo que lhe ocorre depende de muitos que o auxiliaram a chegar ao lugar onde se encontra.

Quanto custa o ar puro da natureza, a água dos córregos e das fontes, a beleza da paisagem, o clima saudável? O alimento que vem à mesa, muitas pessoas participaram no anonimato dessa cadeia que mantem a vida. Uma viagem exitosa, quanto dependeu de pessoas e fatores que não foram observados pelo automatismo da vida? Tudo, que acontece encontra-se vinculado à dependência de um a outro indivíduo ou circunstância que possibilitaram esse momento.

Quantos acidentes, desencantos, enfermidades e mortes marcaram vidas que se entregaram às descobertas, à colonização de países, às transformações feitas para que se transformassem em comunidades felizes!? A todos esses anônimos, a gratidão deve ser oferecida com ternura e gentileza.

O amadurecimento psicológico elimina a negatividade teimosa do ser humano desconfiado e inseguro, que se permite suspeitas de que mesmo a amizade é acompanhada de interesses subalternos daqueles que dão ou buscam a estima.

Uma grande dificuldade à gratidão madura é o hábito de esperar-se resposta ao ato gentil, de aguardar-se que o outro o beneficiário, reconheça o que recebeu e retribua. Essa é uma forma de narcisismo, quando se faz algo e se exige gratidão, ficando-se decepcionado pela ausência dessa resposta, o que leva muitos ansiosos às atitudes infantis de que nunca mais farão nada mais por ninguém, pois não merecem.  

 O sentimento da gratidão sempre deve estar desacompanhado da expectativa de qualquer forma de retribuição, sequer de um olhar ou de um sorriso, que expressariam reciprocidade. Havendo, é bem melhor, porque o outro igualmente se encontra em processo de amadurecimento psicológico e de contribuição valiosa à sociedade. Mas será uma exceção e não uma lei natural e constante.

Todo ato de generosidade, pela maneira de ser, dispensa gratulação e manifesta-se naturalmente. O amor aos filhos, aos cônjuges, os deveres para com eles e para com os outros são de natureza íntima de cada um, que se compraz em proceder conforme as regras do bem viver e não apenas do viver bem, cercado de coisas, de carinho, de compensações.

Essas atitudes são logo esquecidas, pois que, toda vez que se espera reconhecimento, surge um encarceramento, por exemplo, no caso daquelas pessoas que asseveram que vivem para outras: filhos, parceiros, amigos, e que ficam desconsoladas quando aqueles seguem o seu destino. A síndrome do ninho vazio em que se encarceram por prazer ou imaturidade psicológica induz os pacientes à amargura e ao desencanto por não receberem a compensação retributiva em relação ao que fizeram por interesse, não pelo prazer de realizá-lo.

Esse fenômeno é comum também nos trabalhos enobrecedores que esperam aprovação, recompensa da sociedade. Pessoas com alto nível de inteligência e de trabalho contribuem eficazmente em todos os setores do progresso social, através de descobrimentos, de invenções, de realizações grandiosas... Quando não são reconhecidas ou premiadas, caem na revolta ou no desânimo, na queixa ou na desistência de continuar, amarguradas e infelizes. Não são pessoas más, como percebe-se, mas imaturas psicologicamente, estagiando  ainda no período dos elogios infantis, dos aplausos e dos comentários, dos quinze minutos de holofotes, mesmo que depois sofram o esquecimento, como é quase normal numa sociedade utilitarista como a atual. Mesmo que disfarçado, Encontramos aí o narcisismo disfarçado, resultado de uma infância que não recebeu reconhecimento nem estímulos, nem entusiasmo nem acolhimento. O conflito que nasce na imaturidade psicológica.

Aqueles que assim procedem, em contrapartida, por mais que sejam bajulados, elogiados, aplaudidos, sempre tem sede de mais reconhecimento, dando lugar a um condicionamento que se poderia chamar de vício ou dependência de gratidão.

Quando não se recebe gratidão, não significa psicologicamente que a pessoa não seja aceita, que é rejeitada. Esse fato pode resultar de outros fatores psicológicos que se referem ao outro, às circunstâncias, aos valores de cada cultura.

O ideal é viver-se em favor da gratidão mesmo sem a receber, valorizando o lado claridade da vida, as suas bênçãos e todos os contributos existenciais que nunca esperam receber aplauso.

Jesus, o Homem-luz, único ser que não tinha o lado sombra, maior exemplo de maturidade psicológica, fez da sua uma vida dedicada à gratidão, pelo amor com que enriqueceu a Terra desde então, vivendo exclusivamente para o amor e o perdão, a misericórdia e a compaixão.

Recebeu, por todo o bem que fez, pelas importantes lições de sabedoria que deixou para a posteridade, a negação de um amigo, traição de outro, que se arrependeram certamente, a perseguição gratuita dos narcisistas e imaturos, temerosos e egotistas, a infâmia, o abandono, a exposição à ralé arbitrária, as chibatadas, a crucificação... mas retornou em triunfo de imortalidade exaltando a vida e Deus em estado numinoso.

Postado dia 10/12/13.

 

A FATALIDADE DA MORTE

O fenômeno biológico da morte faz parte do equivalente em relação ao nascimento: aglutinação de moléculas que se reúnem e se desarticulam quando ocorre a anóxia cerebral.

Pode-se afirmar, no entanto, que o oposto de morte não é vida, mas renascimento, como afirmou Buda, porquanto, sempre se está na vida, quer no corpo físico, quer no corpo espiritual.

Sendo o Sellf mortal e imortal na visão transcendente de Jung, ei-lo transferindo-se de vibração, pelo fenômeno da morte, ou mergulhando no corpo através do impositivo da reencarnação.

A morte é, portanto, o término do fenômeno biológico, encerramento de uma etapa orgânica, na qual todos os elementos constitutivos do corpo físico se diluem e se transformam sob a ação poderosa da química  presente em a natureza...

Desse modo, o significado psicológico mais valioso da existência corporal é a conquista valiosa da imortalidade, na qual se está mergulhado, mas que se torna lúcida e plena após a desencarnação.

Nesse período, após a ocorrência breve ou longa de obnubilação da consciência, agora sem o envoltório cerebral, o ser, lentamente, de acordo com as suas construções morais e mentais, retorna ao estágio de energia ou princípio inteligente, sem as intercorrências do aprisionamento no casulo material.

A jornada humana no corpo deve constituir a meta plena para o reencontro com a vida total. Portanto, todos os investimentos mentais, morais e psicológicos necessitam voltar-se para essa realidade, tendo em vista a impermanência do corpo físico.

Considerando-se a imortalidade como a grande meta, definitiva, cada instante da viagem corporal representa oportunidade valiosa de crescimento iluminativo, investimento psicológico precioso para a conquista da saúde integral, aquela que procede do interior para o exterior.

Esse nascer e morrer na esfera física propicia ao Espírito a conquista da incomparável plenitude, etapa a etapa, conforme responderam os Benfeitores espirituais a uma indagação de Allan Kardec, demonstrando que tudo evolve no Universo:... É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo...

Desde os primórdios do Self, quando surge nas formas primárias, o seu despertamento ocorre através do encadeamento das experiências carnais, em sucessivos renascimentos corporais, permitindo que se agigantem a pouco e pouco as potencialidades nele adormecidas, que são inerentes à Divindade da qual procede...

Não fosse dessa forma, a existência corporal, em razão da sua brevidade, não teria o menor sentido de lógica ou de finalidade, quando se considera o tempo indimensional e o infinito, logo dissolvendo-se o pensamento no nada, no aniquilamento. A sobrevivência do ser espiritual é crucial para que a vida física tenha justificativa e sentido psicológico que o digam aqueles que nasceram sob injunções coercitivas dos sofrimentos quase inconcebíveis, sem lhes haver concedido direito à comunicação, ao pensamento, à razão...

Muitos outros, atrelados às necessidades socioeconômicas, dão início à existências nas palhas da miséria e transitam nos meios escabrosos onde vivem sem a mínima claridade do amor, nem da solidariedade, misturando-se o crime com a adversidade...

Incontáveis seres que deliram na loucura sob maltratos inumanos, enquanto inúmeros atoleimados perdem-se nos descaminhos do esquecimento humano...

Devido a sua extensão o presente texto terá continuidade na próxima postagem.
Postado dia, 10/12/13.