sábado, 14 de dezembro de 2013


O MISTERIO DO ENCONTRO E SEUS DESAFIOS

(continuação)

 

Dentro das diversas fantasias que nossa infantilidade produz, uma em especial é alimentada e reforçada culturalmente há séculos: o casamento como a busca do paraíso perdido. Jogamos para o outro a responsabilidade da nossa felicidade e concebemos o casamento como uma  obrigação do outro em preencher minhas expectativas, uma imagem do sonho dourado onde o outro me completa. Ninguém pode dar felicidade para ninguém, pois a felicidade é uma questão de postura existencial. Podemos dar educação, amor, informação, apoio, etc, mas não a felicidade!

Joanna de Ângelis assevera que “todo relacionamento conjugal ou compromisso afetivo é um investimento emocional, correndo o risco de não se coroar da satisfação que se espera auferir” (O Despertar do Espírito,p.145). Quando colocamos a obrigação da nossa felicidade no outro estamos confundindo duas coisas: primeiro a função do casamento, segundo a ideia de felicidade.

Primeiro, o casamento do ponto de vista psicológico e espiritual não é para satisfazer nossas necessidades egoístas, não é para criar um bem-estar ou ter no outro uma muleta psicológica. Todos os processos da vida são possibilidades para alcançarmos a individuação, o ser humano pleno e integrado. A meta da individuação é o salvamento da alma. O casamento tem então como finalidade gerar um caminho de salvamento para a alma. Quando duas pessoas se unem, elas são desafiadas a um processo de superação, conhecimento e desenvolvimento espiritual. Isso exige sacrifício e entrega, sacrifício no sentido etimológico da palavra que significa o “sacro ofício” o trabalho sagrado.

Segundo, a felicidade na nossa sociedade materialista é confundida com bem-estar. O bem-estar encontra-se associado com o evitar tensões desagradáveis,  em usufruir sensações de conforto, relaxamento, prazer e satisfação dos desejos. Ter coisas, evitar a dor, o sofrimento e a doença. Uma ideia de satisfação egoica. A individuação e, consequentemente, o casamento, está comprometida com a ideia de salvação, de busca e realização espiritual. E essa busca exige luta, esforço, aprofundamento e capacidade de suportar para poder se transformar. Uma proposta criativa de diálogo com a vida. Desse modo, o casamento não se associa ao bem-estar do eu, mas a uma felicidade maior, espiritual, que é a conquista real de si mesmo e a vivencia plena do amor.

Ampliando o tema para além da relação conjugal, na qual cada relação oportuniza um encontro, encontramos aí o fundamento da existência.  A imagem que temos da realidade atualmente nos é dada pela ideia de rede. Uma rede de relações em que todas as coisas são chamadas a cooperar. Podemos dizer que tudo é encontro. E é nesse jogo de encontros que estabelecemos a dinâmica da vida. Mas se tudo é encontro, importa então então saber o que resulta desse encontro. É o resultado que vai nos dizer se o encontro foi bom ou ruim. O que é um bom encontro ou mal encontro?

Existe uma potencialização das diferenças que incidem umas sobre as outras. E através do embate das diferenças e na força aglutinadora das simpatias que nos problematizamos e crescemos. É pelas diferenças que se pode iniciar um efeito desestabilizador sobre nós. Quando as potencias de cada ser são fortalecidas e renovadas para melhor, então dizemos que foi um bom encontro. Para Ângelis, “o bom relacionamento é aquele que resulta do contato que inspira, que emula e que proporciona bem-estar.” Livro O Despertar do Espírito, p.149 Quando o encontro gera desestabilização das minhas forças criativas, promovendo uma desordem que me fragiliza, então temos um mal encontro. Desse modo, como nos assevera Joanna de Ângelis, todo relacionamento deve enriquecer aqueles que se encontram envolvidos, favorecendo a identificação de metas e meios para serem conseguidos.

Voltamos agora para a proposta de Jung, segundo a qual a objetividade garante um verdadeiro relacionamento. Com objetividade queremos afirmar a necessidade de conhecer o outro e a mim mesmo para que haja um bom encontro. Devemos conquistar a capacidade de perceber a nós e ao outro e para o melhor modo de perceber, temos de ver quais os meios para conseguirmos nosso fim. Em resposta a essa busca de objetividade e busca de fim, que é o bom encontro, podemos resumir as seguintes etapas:

1ª – temos de conhecer a natureza das pessoas e a nossa, para aperfeiçoá-la.

2ª – temos de criar a capacidade de deduzir as diferenças e as concordâncias entre os elementos envolvidos na relação.

3ª – temos de ver o que cada pessoa pode sofrer com o contato.

4ª – temos de associar esses elementos com a natureza e a potencia das pessoas.

Por ser muito extenso, o presente texto terá continuidade na próxima postagem. Postado dia 14/12/13

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