O
MISTERIO DO ENCONTRO E SEUS DESAFIOS
(continuação)
Dentro das diversas
fantasias que nossa infantilidade produz, uma em especial é alimentada e
reforçada culturalmente há séculos: o casamento como a busca do paraíso
perdido. Jogamos para o outro a responsabilidade da nossa felicidade e
concebemos o casamento como uma obrigação
do outro em preencher minhas expectativas, uma imagem do sonho dourado onde o
outro me completa. Ninguém pode dar felicidade para ninguém, pois a felicidade
é uma questão de postura existencial. Podemos dar educação, amor, informação, apoio,
etc, mas não a felicidade!
Joanna de Ângelis assevera
que “todo relacionamento conjugal ou compromisso afetivo é um investimento
emocional, correndo o risco de não se coroar da satisfação que se espera auferir”
(O Despertar do Espírito,p.145). Quando
colocamos a obrigação da nossa felicidade no outro estamos confundindo duas
coisas: primeiro a função do casamento, segundo a ideia de felicidade.
Primeiro, o casamento do
ponto de vista psicológico e espiritual não é para satisfazer nossas
necessidades egoístas, não é para criar um bem-estar ou ter no outro uma muleta
psicológica. Todos os processos da vida são possibilidades para alcançarmos a
individuação, o ser humano pleno e integrado. A meta da individuação é o
salvamento da alma. O casamento tem então como finalidade gerar um caminho de
salvamento para a alma. Quando duas pessoas se unem, elas são desafiadas a um
processo de superação, conhecimento e desenvolvimento espiritual. Isso exige
sacrifício e entrega, sacrifício no sentido etimológico da palavra que
significa o “sacro ofício” o trabalho sagrado.
Segundo, a felicidade na
nossa sociedade materialista é confundida com bem-estar. O bem-estar
encontra-se associado com o evitar tensões desagradáveis, em usufruir sensações de conforto,
relaxamento, prazer e satisfação dos desejos. Ter coisas, evitar a dor, o sofrimento
e a doença. Uma ideia de satisfação egoica. A individuação e, consequentemente,
o casamento, está comprometida com a ideia de salvação, de busca e realização
espiritual. E essa busca exige luta, esforço, aprofundamento e capacidade de suportar
para poder se transformar. Uma proposta criativa de diálogo com a vida. Desse modo,
o casamento não se associa ao bem-estar do eu, mas a uma felicidade maior,
espiritual, que é a conquista real de si mesmo e a vivencia plena do amor.
Ampliando o tema para além
da relação conjugal, na qual cada relação oportuniza um encontro, encontramos
aí o fundamento da existência. A imagem
que temos da realidade atualmente nos é dada pela ideia de rede. Uma rede de
relações em que todas as coisas são chamadas a cooperar. Podemos dizer que tudo
é encontro. E é nesse jogo de encontros que estabelecemos a dinâmica da vida. Mas
se tudo é encontro, importa então então saber o que resulta desse encontro. É o
resultado que vai nos dizer se o encontro foi bom ou ruim. O que é um bom
encontro ou mal encontro?
Existe uma potencialização
das diferenças que incidem umas sobre as outras. E através do embate das
diferenças e na força aglutinadora das simpatias que nos problematizamos e
crescemos. É pelas diferenças que se pode iniciar um efeito desestabilizador
sobre nós. Quando as potencias de cada ser são fortalecidas e renovadas para
melhor, então dizemos que foi um bom encontro. Para Ângelis, “o bom
relacionamento é aquele que resulta do contato que inspira, que emula e que
proporciona bem-estar.” Livro O
Despertar do Espírito, p.149 Quando o encontro gera desestabilização das
minhas forças criativas, promovendo uma desordem que me fragiliza, então temos
um mal encontro. Desse modo, como nos assevera Joanna de Ângelis, todo
relacionamento deve enriquecer aqueles que se encontram envolvidos, favorecendo
a identificação de metas e meios para serem conseguidos.
Voltamos agora para a
proposta de Jung, segundo a qual a objetividade garante um verdadeiro
relacionamento. Com objetividade queremos afirmar a necessidade de conhecer o
outro e a mim mesmo para que haja um bom encontro. Devemos conquistar a
capacidade de perceber a nós e ao outro e para o melhor modo de perceber, temos
de ver quais os meios para conseguirmos nosso fim. Em resposta a essa busca de
objetividade e busca de fim, que é o bom encontro, podemos resumir as seguintes
etapas:
1ª – temos de conhecer a
natureza das pessoas e a nossa, para aperfeiçoá-la.
2ª – temos de criar a
capacidade de deduzir as diferenças e as concordâncias entre os elementos
envolvidos na relação.
3ª – temos de ver o que cada
pessoa pode sofrer com o contato.
4ª – temos de associar esses
elementos com a natureza e a potencia das pessoas.
Por ser muito extenso, o presente
texto terá continuidade na próxima postagem. Postado dia 14/12/13
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