A CRISE DA MODERNIDADE E A
PROPOSTA PSICOLÓGICA DE JOANNA DE ÂNGELIS
Autor: Gelson L. Roberto
Continuação da p. 56.
A única responsabilidade
refere-se à responsabilidade de uma suposta emancipação: a tarefa da conquista
da liberdade e da felicidade foi deslocada da
sociedade para o indivíduo, ou seja,
ela foi privatizada, desregulamentada. Intensifica-se a onda de um
individualismo exacerbado, esse neoindividualismo cria um culto ao prazer próprio,
um hedonismo no qual o outro figura como um simples objeto.
Lima oferece uma série de reflexões
sobre o tema que listamos a seguir: anteriormente, o modernismo era tomado por imagens de máquinas [as indústrias]
enquanto que o pós-modernismo é usualmente
tomado por “máquinas de imagens” da televisão, do computador, da internet e do shopping center. A modernidade era
marcada pela excessiva confiança na razão, nas grandes narrativas utópicas de
transformação social, e o desejo de aplicação mecânica de teorias abstratas à realidade.
Jameson observa que:
“Essas novas máquinas podem se
distinguir dos velhos ícones futuristas de duas formas interligadas: todas são
fontes de reprodução e não de ‘produção’ e já não são sólidos esculturais no
espaço. O gabinete de um computador dificilmente incorpora ou manifesta suas
energias específicas da mesma maneira que a forma de uma asa ou de uma chaminé”.
A sociedade pós-moderna irá
favorecer o surgimento um hedonismo socializado pela mídia e, de certa forma,
respondida pela própria sociedade como sintoma “sociedade espetáculo”.
Na sociedade ocidental pós-moderna,
a visibilidade de cenas tende a ser obscena, quando exclui a dimensão da
subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, anula-se a dimensão do
privado, tornando “tudo” público, do cotidiano dos ansiosos por fama dos ex-anônimos
do programa televisivo Big Brother, aos
já famosos da revista Caras, e, também,
aos miseráveis igualmente noticiados e fotografados em decorrência de algum
fato jornalístico e tudo que possa virar uma forma de espetáculo.
O mal-estar pós-moderno é visível e trivial, expressado na linguagem
do cotidiano do trabalho compulsivo, muitas vezes vendido como se fosse “lazer”
ou “ócio criativo”, que gera stress,
a perversão, a depressão, a obesidade, o tédio.
A pós-modernidade marca o declínio
da Lei-do-Pai, cujo efeito mais imediato no social é a anomia, em que a perversão se vê livre para se manifestar
em diversas formas, como na violência urbana, no terrorismo, nas guerrilhas
ideologicamente consideradas “justas, “limpas”, ou “cirúrgicas”. A palavra tem
origem grega e vem de a + nomos, em que a significa ausência, falta, privação, inexistência, e nomos quer dizer lei, norma. Etimologicamente,
portanto, anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. A anomia
é um estado de falta de objetivos e perda de identidade, provocado pelas
intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno. A partir do
surgimento do capitalismo, e da tomada da Razão, como forma de explicar o
mundo, há um brusco rompimento com valores tradicionais, fortemente ligados à concepção
religiosa. A modernidade, com seus intensos processos de mudança, não fornece
novos valores que preencham os anteriores demolidos, ocasionando uma espécie de
vazio de significado no cotidiano de muitos indivíduos. Há um sentimento de se “estar
à deriva”, participando inconscientemente dos processos coletivos/sociais:
perda quase total da atuação consciente e da identidade.
Este termo foi cunhado por
Durkheim em seu livro O suicídio.
Durkheim emprega este termo para mostrar que algo na sociedade não funciona de
forma harmônica. Algo desse corpo está funcionando de forma patológica ou “anomicamente”.
Em seu famoso estudo sobre o suicídio, Durkheim mostra que os fatores sociais –
especialmente da sociedade moderna – exercem profunda influencia sobre a vida
dos indivíduos com comportamento suicida.
A razão cínica é cada vez
mais instrumentalizada. Isto é, não basta ser transgressivo, ou
perverso-imoral, é preciso se construir
uma justificativa “moral” para os atos imorais ou perversos. Zizek (2003)
cita o escabroso caso dos necrófilos, nos EUA, que se julgam no “direito” de
fazer sexo com cadáveres. Ou seja, qualquer cadáver é “um potencial parceiro
sexual ideal de sujeitos ‘tolerantes’ que tentam evitar toda e qualquer forma
de molestamento: por definição, não há como molestar um cadáver”.
Pausa do texto. p.59.
Solicito aguardar a próxima postagem do mesmo texto que é muito interessante.
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