sábado, 27 de abril de 2019


GRAVITANDO EM TORNO DE DEUS
A GRATIDÃO E A PLENITUDE

A busca da plenitude é natural, por ser a superação do sofrimento, da angustia, da ansiedade e da culpa, significando o encontro com a consciência ilibada ou pura portanto  que sabe conduzir o carro orgânico ao destino da iluminação. Embora, ninguém possa se libertar totalmente dos atavismos, das heranças, sem a aquisição de novos hábitos, especialmente das heranças mitológicas que o vinculam à condição de humanidade, portanto ficando sempre sujeito a aflições e a todas as  sujeições do veículo carnal.

Plenitude sem inquietações é  utopia, a partir mesmo da impermanência do corpo físico. Compreendendo-se o seu desgaste, a sua degeneração que lhe é própria, as alterações e mudanças de constituição, produzindo mal-estar, dores, ansiedade, melancolia, inquietação.

A plenitude é o estado de harmonia entre as manifestações psíquicas, emocionais e orgânicas resultante do perfeito entrosamento da mente, do self - que também possui alguma forma de sombra,- com o ego, integrando-se sem luta, a fim de readquirir a unidade.

Essa conquista numinosa, transcendente que resulta da autoconsciência, liberta o sentimento de gratidão que faz parte da individuação, produzindo uma aura de inigualável luz em volta de si.

Alcançar esse estado psicológico de auto-integração traz a noção de uma expansão da consciência na direção da Divindade, de onde vem e para onde volta sempre que encerra uma das muitas etapas de aprendizagem terrena.

É natural, que a caminhada humana se caracterize pelos experimentos psíquicos do desenvolvimento do deus interno, e da libertação das síndromes que se transformam em bengalas psicológicas para justificar o não crescimento interior, a continuação da queixa, do azedume, da paralisia emocional, em que se satisfaz em situação de masoquismo.

O Espirito é destinado à plenitude desde que foi criado por Deus simples e ignorante.
Simples, porque sem complexidades resultantes do conhecimento, da lógica, da evolução. Ignorante, pelo predomínio da sombra no self  e falta dos recursos intelecto-morais que o engrandecem como efeito do esforço pessoal na conquista dos valores que estão ao seu alcance.

Os conflitos são constantes, caracterizados por momentos de coragem e de desencanto, por desejo de crescimento e medo das conquistas libertadoras, por dúvidas e melancolia...

A sombra acompanha o ser humano enquanto estiver no processo de autoiluminação, abrindo espaço para a harmonia quando da sua libertação da matéria.

O historiador grego Heródoto de Halicarnasso, diz que Sólon, o nobre filósofo, dialogando com o rei Creso, da Lídia, considerado o homem mais rico do mundo no seu tempo, que se considerando feliz pelos tesouros adquiridos, após apresenta-los ao sábio, perguntou, na sua opinião qual seria o homem mais feliz do planeta. E porque o gênio ateniense dissesse que conhecera um jovem chamado Téluz, que ficou famoso em Atenas pela sua nobreza de caráter e pela abnegação, a quem assim o considerava, o monarca soberbo trouxe nova pergunta:

- E, na sua opinião, qual é o segundo homem mais feliz do mundo? – crendo que seria citado como exemplo, novamente constrangeu-se com a resposta do convidado, que disse haver conhecido dois irmãos que cuidavam da mãe e, quando ela desencarnou, dedicaram a vida a servir à cidade-Estado. Creso não pôde mais esconder o desencanto e tornou-se indelicado com o convidado, realmente mais sábio daquela época.

Sólon continuou tranquilo e, no momento da despedida, disse?

- Rei, ninguém pode afirmar-vos se sois feliz, senão depois da vossa morte, porque são muitos os incidentes e ocorrências que modificam os transitórios estados emocionais e econômicos de todas as criaturas...

De fato, mais tarde, após a morte do filho Actis, em circunstâncias trágicas, e a destruição do seu país que sucumbiu às tropas de Ciro, o Grande, da Pérsia, vendo Sardes, a capital da Lídia, ardendo, e todos os tesouros nas mãos dos invasores, ele concordou com Sólon, e proclamou no poste em que seria queimado vivo:

- Oh! Sólon! Oh! Sólon, como tinhas razão!
Ouvido por Ciro, o conquistador, que também amava Sólon, o filósofo, perguntou a razão pela qual se referia ao nobre sábio, e, após narrar a experiência, teve a vida poupada, tornando-se seu auxiliar no controle dos bens e educador de Cambises, seu filho...

A transitoriedade dos valores materiais, inclusive da argamassa celular, torna o Espírito reencarnado vulnerável às injunções normais da existência física.

Creso, pioneiro da fundação de moedas de ouro, tendo imensa fortuna em ouro trazida pelas águas do rio Pactolo, que dividia a capital da Lídia, não lembrou de ser grato à vida, pensando somente em acumular, embora vitimado pelas circunstancias, em que foi pai de um surdo-mudo e o seu herdeiro teve uma desencarnação trágica ao ser varado pela lança atirada pelo seu amigo Adasto, filho do rei Midas, da Frígia...

O que se tem é apenas enfeite, adorno, é preciso que se considere psicologicamente o que se faz, o que se é, e tudo o que se trabalha interiormente e transformar em gratidão pela vida, pela oportunidade de autoiluminação.

Apesar da riqueza, Creso não era realmente feliz, pois não pôde evitar o nascimento do filho limitado, nem a morte do herdeiro amado, nem, a invasão e destruição do seu reino. Mas, quando se permitiu a humildade de reconhecer que Sólon tinha razão, pôde ter a sua e a vida dos familiares poupadas da morte perversa que espera sempre os vencidos.

Ciro, quando libertou o rei e família vencidos disse:
- Quero que anote a minha generosidade, pois, se algum dia eu vier a cair vitimado em alguma batalha, espero que se use da mesma misericórdia para comigo, conforme o uso para com ele (Creso).
São os valores morais, as conquistas espirituais,  responsáveis pela gratidão que resulta de todas as oportunidades de crescimento e de valorização da vida, enriquecendo o ser humano de generosidade, filha da sabedoria de viver.

Aquele que é grato, que reconhece a sua pequenez ante a grandeza da vida, torna-se pleno e feliz.   

Divaldo Pereira Franco no livro, Psicologia da gratidão. Trabalhado e editado por Adáuria Azevedo Farias. 27/04/2019

sexta-feira, 12 de abril de 2019


GRAVITANDO EM TORNO DE DEUS
A BUSCA DO SELF COLETIVO MEDIANTE A GRATIDÃO

A herança coletiva com a intolerância religiosa e alguma de origem cientifica sobre as novas conquistas do pensamento abriram espaço para muitos dos atuais conflitos que afligem o homem, especialmente no que se refere ao seu comportamento neurótico. Doutrinas castradoras e inconsequentes, foram e continuam sendo responsáveis pela geração da culpa e da autopunição como instrumentos de depuração pessoal, favorecendo o surgimento do ego neurótico.

O materialismo cientifico exagerou na valorização do corpo, atribuindo-lhe necessidades que são transformadas em exigências doentias de comportamento  perturbando-lhe o desenvolvimento das duas funções orgânicas e psicológicas.
Nem viver para o corpo nem deixar-se de o valorizar...
O meio-termo é sempre o mais saudável, ao invés de qualquer postura extremista.

Todos trazemos necessidades de vário tipo, caracterizando o estágio evolutivo de cada um.
É natural, que se queira deter valores que tragam bem-estar, convivência social saudável, afetividade enriquecedora, mesmo  com alguns momentos de tristeza, de amargura, de solidão, resultado de fuga da realidade sem prejuízos psicológicos na sua estrutura íntima.

Indivíduos portadores de conflitos severos, sem coragem para o auto-enfrentamento, para dilui-los nas experiências dos relacionamentos humanos, refugiaram-se no dogmatismo vindos da ignorância, transferindo suas inseguranças e angustias para os outros, proibindo a vivencia da felicidade com justificativas de que a Terra é um vale de lágrimas ou um lugar de desterro, onde o sofrimento deve ser cultivado. Ao mesmo tempo, pelas inquietações e frustrações sexuais, estabeleceram que o corpo é responsável pela perda do Espírito, estabelecendo regras de auto punição, de flagelação, de masoquismo, submetendo-o, por  mecanismos perversos, à exigências absurdas e antinaturais, violentadoras do seu processo normal de desenvolvimento.

Conceitos infelizes e injustificáveis,  transformaram-se em regras religiosas e algumas em imposições culturais, ditas científicas, punindo o indivíduo pelas suas necessidades biológicas e psicológicas, viabilizando graves transtornos na personalidade.

Por ser inviável a violência em relação às necessidades emocionais e orgânicas do ser humano, surgiram os mecanismos de fuga e de hipocrisia, construindo enfermos do  self muito preocupados com o ego. Mais importante, por conseguinte, de ser autentico, normal, em processo de crescimento, criou-se a máscara do parecer bem apesar das aflições internas dolorosas.

O que é grave nesse comportamento é o impositivo de odiar-se o corpo para salvar-se a alma, como se a dualidade não fosse o resultado de uma interdependência em que Espirito é o responsável pelo pensamento, pelas aspirações, pelo sentimento de que a organização fisiológica expressa como necessidades que se transformam em prazeres.

Responsável pelo corpo em que transita, o Espírito modela-o através do seu períspirito encarregado das experiências anteriores de outras existências, trabalhando-lhe as necessidades conforme a conduta e as ações felizes ou não praticadas naquela ocasião.

Em consequência o sentimento de gratidão, desaparece e abre espaço para o sentimento de desconforto pela vida física e de ressentimento pelos próprios fracassos, quando, em vez desse comportamento, a Terra é uma formidável escola de bênçãos, onde se vivenciam experiências em refazimento e outras em construção, avançando-se sempre para a plenitude.

Toda pessoa normal sente desejo de amar e de ser amada, de ambicionar e conquistar valores que lhe traduzam o estágio de evolução intelecto-moral, de sorrir e de chorar, como fenômenos comuns do dia a dia.

Não existe pessoa alguma sem esses anelos, a não ser quando passam por dolorosos transtornos psicóticos que lhes invalidam o entendimento e a capacidade de compreender.

O importante é a maneira como se aspira e o nível de equilíbrio que deve ser considerado, evitando-se qualquer abuso ou excesso vindos da insatisfação neurótica.

É normal o querer ser aceito e benquisto no grupo social em que se encontre, sem prejuízo para a sua evolução moral, mas, como um estímulo para o desenvolvimento dos valores adormecidos.

Quando o ego se neurotiza, manifestam-se os transtornos que são frutos não legítimos dos fenômenos castradores, como seja falar demais ou não dizer nada, viver sempre em luta pelo poder ou desinteressar-se de qualquer aspiração, aguardar a afetividade dos outros sem o empenho por se doar às outras pessoas, falsas condutas de autovalorização desconsiderando os que formam o núcleo familiar ou social.

O mais grave nessa conduta, é como são exteriorizadas as manifestações do ego neurótico.

Algumas pessoas se tornam agressivas, se expondo com facilidade, se impondo sobre os outros, não escondendo os conflitos em que vivem, já outras, mais hábeis e dissimuladoras, sabem manipular o próximo e parecer vítimas das incompreensões, cultivando a autocompaixão e abrindo espaço a desarmonias aonde se encontrem.

As variantes dessas manifestações neuróticas tem várias formas de se expressar, pedindo de todos cuidados especiais nos relacionamentos, para que sejam evitados conflitos mais graves, pois os pacientes dessa natureza estão sempre armados contra, em mecanismo contínuo de defesa como se estivessem ameaçados exteriormente...

Apesar desses impositivos ancestrais e dessas heranças culturais perturbadoras, o self  pessoal intui o melhor caminho a percorrer e despreza os tormentos neuróticos do ego, abrindo espaço para a compreensão da finalidade da existência que deve ser cultivada com alegria, ampliando a sua faixa de realização até se mesclar no painel coletivo em forma de gratidão pela vida.

À medida que o self se resolve por desmascarar o ego neurótico e propõe-se à diluição dos seus conflitos, modifica-se a realidade do paciente, que passa a viver melhor com as suas dificuldades, compreendendo que lhe cabe realizar uma análise mais cuidadosa a respeito da conduta pessoal e social, que não podem ser corretas, pois se expressam em sentido contrário à correnteza, isto é, ao modus vivendi da sociedade.

Lentamente, o indivíduo, percebe quantos valores positivos se encontram presentes no intimo, aprendendo a respeitar a vida e as suas conjunturas com alegria, modificando uma ou outra circunstancia ou realização, ao mesmo tempo descobrindo a benção da gratidão por tudo que lhe acontece e flui, ampliando-se em direção à sociedade.

O self coletivo traz-lhe adaptação no seu contexto e, sem perder a identidade e as conquistas, mantém-se feliz por compreender a utilidade da sua vida em relação a outras vidas e ao conjunto cósmico.

Ninguém há que possa se negar a essa fantástica percepção, que enriquece da alegria saudável de lutar e de perseverar nos ideais que promovem o bem estar coletivo e a felicidade de todos.

Nesse imenso oceano de graças, o Espirito descobre quanto é importante a sua contribuição no conjunto e a necessidade da sua evolução.

Aos poucos, os complexos de inferioridade, os transtornos de comportamento, os conflitos arquetípicos abrem espaço ao ego equilibrado sob a saudável administração do self, estruturando a nova sociedade do futuro.

É nesse momento que a gratidão ilumina interiormente o ser humano tornando-o elemento valioso no conjunto espiritual da humanidade.

Divaldo Pereira Franco no livro, Psicologia da gratidão. Trabalhado e editado por Adáuria Azevedo Farias. 13/04/2019

sexta-feira, 22 de março de 2019


GRAVITANDO EM TORNO DE DEUS
O SER HUMANO PERANTE A SUA CONSCIENCIA

Os arquétipos ego e self surgiram logo depois da fissão da psique, e junto com os sinais de consciência surgiram também sinais de despertamento das emoções várias e significado psicológico.

As primeiras manifestações de medo e da ira se fizeram seguir de outras expressões dos sentimentos adormecidos, propondo a continuação dos instintos de conservação e de reprodução da vida orgânica, possibilitando superação dos agressivo-defensivos, ou dando uma direção mais eficaz, assim escolhendo os que trazem prazer e harmonia e não os de sofrimento e desequilíbrio.

A dor brutal do princípio permitiu  manifestações menos grosseiras, culminando nos fenômenos morais afligentes que o conhecimento tem o dever de suavizar, à medida que a consciência conquista os níveis superiores a que está destinada.

No Oriente, o discernimento que proporcionou o surgimento da consciência é encontrado na tradição do Bagavad Gita, parte do Mahabarata, quando o mestre Krishna, dialogando com o discípulo Ardjuna, o ajudou a penetrar na vida mística, especialmente na luta que deveria travar com destemor entre as virtudes (de pequeno numero) e os vícios (bem mais numerosos), com a aplicação das forças nobres da consciência.

No judaísmo surgiram os vislumbres do bem e do mal, nos livros mais antigos dos profetas, especialmente em alguns que foram considerados heréticos a partir do Concílio de Nicéia, no ano 325 d.C., convocado imperador Constantino. Entre esses destacamos o Livro de Enoque, em cujas lições Jesus teria encontrado apoio para o seu ministério, e os apóstolos João, Tiago, Lucas, nos Atos, e Paulo se inspiraria para a elaboração de importantes páginas que aplicaram nas suas propostas evangélicas e epistolares...

A dualidade arquetípica da sombra e da luz apresenta-se como Satã e Cristo, o Ungido, que vem das tradições orais, detestado o primeiro pela sua perversão e maldade – o outro lado da psique, o lado que se procura ignorar -, e o Cristo – a luz da verdade, do bem, da plenitude...

De maneira equivalente expressou-se o pensamento socrático-platônico no ocidente,  apresentando a virtude como consequência dos valores morais ante os vícios de todo porte que degradam, impedindo o desenvolvimento do logos interno presente em todos os seres humanos...

Nas reencarnações, o Espírito aprimora os valores ético-morais e intelectuais, que  desenvolve as faculdades da beleza, da estética, da arte em diversas manifestações que possibilitam superar os impulsos do primarismo pela espontânea escolha dos sentimentos morais elevados.

Vivenciando, em cada reencarnação, uma ou várias faculdades éticas, as suas variantes enriquecidas do bem sobrepõem-se à anteriores tendências, fixando os valores espirituais que culminarão na plenitude do ser.

Esses períodos, alguns marcados por grandes turbulências emocionais, despertam a consciência do ego para o conhecimento do si-mesmo, permitindo-lhe compreender a finalidade da existência carnal.

À medida que supera os episódios vivenciados no pavor, dando lugar as manifestações da afetividade, a princípio em forma de posse e domínio, e depois em atitudes de renuncia pelo bem-estar do outro, a ampliação da consciência objetiva impulsiona o Espírito para as conquistas de natureza cósmica.

Nesse momento, surge o nobre sentimento da gratidão com as suas mais simples expressões de alegria pelo que se recebe da vida, e mais adiante pela necessidade de retribuir, libertando-se da posse enfermiça e da paixão desequilibrante, antes orquestradas pelo ego e pelo arquétipo sombra.

Sentindo essa doce emoção de agradecer, ele é impulsionado para a cooperação edificante no grupo social para melhor e mais feliz, no qual a saúde real independe dos processos de desgastes pelas enfermidades ou pela senectude.

A consciência grata é risonha e saudável, e predomina em qualquer idade somática do ser humano.

Existem crianças e jovens com exuberância de saúde física, mas frios dos sentimentos de afeto, ingratos, mudando de atitude somente quando se encontram em jogo os seus interesses imediatos de significado egotista. Também destacamos valores de enriquecimento de gratidão em anciãos e enfermos que, mesmo passando por circunstancias e ocorrências orgânicas, tornam-se exemplo vivos de alegria, de luminosidade, de bem-viver ...Nem a aproximação da morte biológica os aflige ou atemoriza, mas sim alegra-os em agradável anuncio de libertação lhes tornando possível a individuação antes ou após a morte...

O sentimento de gratidão, portanto, não se deve apresentar apenas quando tudo é satisfatório, quando os fenômenos psicossociais, emocionais e orgânicos encontram-se em clima de satisfação de alegria, mas também nas adversidades. Reagir-se de maneira grata aos sucessos é normal e natural, e se assim não se procede é porque se é arrogante, soberbo, vivendo em conflitos desgastantes. O desafio à gratidão ocorre nos tempos difíceis, quando surgem as adversidades que também fazem parte do processo desafiador da evolução, já que nem sempre os céus humanos estarão adornados de astros, sendo todos chamados a atravessar a noite escura da alma com a luz do sentimento reconhecido a Deus pela oportunidade de experienciar novas maneiras de viver.

Normalmente, o sofrimento mata a gratidão e o indivíduo foge para a lamentação, para a autoacusação ou autojustificação, e faz uma comparação com as pessoas que  parecem felizes e sem inquietação.

Sem as experiências dolorosas, ninguém pode avaliar as benignas por faltar parâmetros de avaliação. É preciso nesses momentos mais difíceis liberar-se da raiva, da mágoa, evitando a ingratidão pelos bens armazenados e pelas horas felizes vividas antes, continuando dessa forma a amar a vida mesmo nessas circunstancias que são indispensáveis.

O mito de Jó deve ser modelo de aprendizado, pela coragem e gratidão a Deus mesmo quando tudo lhe havia sido tirado: rebanhos, servos e escravos, filhos e recursos financeiros, ficando em estado lamentável, mas sem revolta.

A lenda diz que aquilo foi resultado da interferência de Satanás, que lhe invejando a felicidade e o amor a Deus propôs ao Criador que ele se mostraria igual as outras criaturas, rebelde, ingrato e desnorteado.

Aceitando o desafio proposto, o Senhor da Vida testou o afeto de Jó, cobrindo-o de chagas e de miséria, que reagiu de forma oposta à sombra, sendo fiel em todos os momentos e grato pelas provações, apesar da revolta da sua mulher...

Ele apenas perguntou:
- Por que eu?

E depois de muitas reflexões felizes concluiu que não existe bem sem mal, felicidade sem sofrimento, colocando Deus – o arquétipo primordial – acima de tudo e aceitando-Lhe as imposições sem revolta.

Em consequência, Deus mostrou a Satanás que Jó tinha sido fiel no  teste e devolveu a ele tudo que lhe havia tirado...

Dilatando-se a consciência empobrecida pela lucidez, os arquivos do self  (ser Espiritual, ser imortal, eu verdadeiro) liberam os arquétipos celestes, que procedem do primordial (que é Deus), e a gratidão também se torna o estado numinoso que proporciona a conquista cósmica recomendada por Jesus como a instalação do reino dos céus  nos corações.
Texto de Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco no livro, Psicologia da gratidão. Trabalhado e editado por Adáuria Azevedo Farias. 22/03/2019.

sábado, 2 de março de 2019


A GRATIDÃO COMO ROTEIRO DE VIDA


Passando por níveis diferentes de discernimento e de lucidez, a conquista da consciência é o grande desafio da vida. Pode-se mesmo transformar essa conquista no sentido, no significado que Jung propõe se dever buscar,  substituindo mesmo a ilusão da felicidade, fugidia, que a realidade dilui logo depois de ser  alcançada. ...

Causado pelos diferentes estágios de consciência fisiológica (comer, dormir, reproduzir-se,) ou psicológica (comer, dormir, reproduzir mas também pensar e agir com discernimento e segurança ético-moral), o sentimento de gratidão apresenta-se também na capacidade de compreender e de sentir o valor da existência terrena.
                                                      
Algumas culturas modernas conservam ainda o conceito marxista e primário de que a gratidão é um sentimento feminino, emoção específica da mulher, não devendo ser cultivada pelo homem.

Com esse entendimento, quando um homem expressa gratidão, dizem, que se encontra em conflito de sexualidade predominando aí a anima no comportamento.

Nessa teoria ultrapassada o homem, deve caracterizar-se pela força, entendida como brutalidade, vigor de sentimentos e quase total ausência das emoções superiores da ternura, da bondade, da abnegação, sendo o sacrifício mais um gesto estoico e másculo do que a entrega ao ideal, ao sentido de viver.

Como consequência, essa manifestação natural  da emotividade cheia de amor é recalcada e desprezada, dando origem a culpa inconsciente pela instalação da ingratidão, que é o seu oposto.

Numa linguagem poética, a flor e o fruto, o lenho e a sombra são a gratidão  da planta a benção da vida.

A pureza generosa e refrescante é a gratidão da nascente reconhecida por existir.

O grão que se deixa triturar é a gratidão  presente nele para se transformar em pão e  dessa forma em manutenção da vida.

Porque pensa e sente, o humano é constituído pelas emoções que, na fase primária, são agressivo-defensivos e, à medida que evoluir, transformam-se em reconhecimento e retribuição. Não seria como uma devolução equivalente ao que recebeu, como um pagamento pelo que lhe foi dado, mas  como alegria, reconforto, pelo que conseguiu.

Todo crescimento pessoal cultural, moral e espiritual dirige-se para o sentimento de gratidão, da oferta, da participação no conjunto, tornando-se o indivíduo também útil e importante.

A gratidão individual é uma nota harmônica contribuindo na sinfonia universal, ampliando-se e tornando-se um sentimento coletivo que proporciona o equilíbrio social e espiritual da humanidade.

É correto pensar-se que gratidão seja  instrumento de afeição, mas o seu significado vai além ele deve transformar-se numa forma de viver-se, de entregar-se ao processo de crescimento interior, de realização do progresso.

Desejar-se a gratidão como flor espontânea que medra em determinados momentos e logo emurchece, não é o suficiente.

Ela deve ser treinada, exercida como forma de comportamento, externando-se em todas as situações em forma de alegria e de satisfação.

Normalmente, os portadores de transtornos de conduta, os psicóticos e aqueles que sofrem de psicopatologias tornam-se ingratos, perdem o contato com a realidade dos sentimentos e  voltam ao primarismo egoísta e soberbo das atitudes negativas. É claro que esse tipo de enfermidades, resultantes de problemas na área das neurocomunicações, apresentam carência de serotonina, de noradrenalina, de dopamina, amortecendo-lhe as emoções superiores e castrando as comunicações da afetividade. Mas esse tipo de ocorrência, encontra-se atrelada ao estágio evolutivo do paciente, às suas construções mentais quando esteve saudável, aos mecanismos de ansiedade e de desconfiança, de fácil irritabilidade e enfado.

O exercício, da afeição que se gratula e se expressa gentil, enriquece a emotividade superior, empobrecendo o egoísmo e desenvolvendo o self que se libera de algumas das imposições do ego, facilitando a comunicação no eixo entre ambos...

Não é sempre, que, o indivíduo sente a gratidão, por vários motivos: infância infeliz, família turbulenta e difícil, relacionamentos malsucedidos, solidão, complexo de inferioridade ou de superioridade que embrutecem os sentimentos, desenvolvendo  ferramentas de autodefesa.

Isso não deve preocupar. Constatar que não se sente gratidão já é uma forma de compreendê-la, de percebê-la na sua manifestação inicial. À medida porém que as emoções se expandem e o inter-relacionamento pessoal permite a ampliação do convívio com outras pessoas, aparecem os pródromos do bem viver, da comunhão fraternal, do desinteresse imediatista contrárias às condutas doentias, e vai surgindo espontaneamente o reconhecimento de amor e de ternura à vida e a tudo quanto existe.
                                                         
Não havendo ninguém autossuficiente, que seja desvinculado de outrem, que não necessite da contribuição de outras pessoas individualmente e da sociedade em geral, é inevitável que a busca de companhia, o descobrimento de valores que existem nas outras pessoas, a grandeza moral de que muitos dão excelentes mostras  despertem o sentimento de gratidão como retribuição mínima ao contexto social no qual se vive.

A psicoterapia da gratidão, preventiva aos males e curadora de conflitos, está presente em todas as obras relevantes da humanidade, tanto nas de natureza filosófica ou religiosa, seja nos comportamentos dos grandes construtores da sociedade, mártires ou santos, pensadores ou místicos, legisladores ou profetas... Porque ninguém consegue vincular-se a um ideal de engrandecimento humanitário sem arrastar outros pela emoção do seu exemplo e da sua bondade para as fileiras da sua trajetória.

O sentimento da gratidão é de natureza psicológica e imediatamente aciona o gatilho, se transformando em emoção e sensação orgânica.

Quando se experimenta o sabor da gratidão, aumenta-se o desejo de servir mais e melhor contribuir no grupo social em que cada qual se encontra e na humanidade em geral.

Inevitável é, portanto, a presença da gratidão no cerne das vidas humanas.
  
Texto de Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco no livro, Psicologia da gratidão. Trabalhado e editado por Adáuria Azevedo Farias. 02/03/2019.

domingo, 24 de fevereiro de 2019


GRAVITANDO EM TORNO DE DEUS
RENDENDO-SE À GRATIDÃO

Enquanto o sentimento da gratidão não se apresentar natural, espalhando-se generoso, a maturidade psicológica do indivíduo está distante da meta a ser atingida.

Considerando-se o esforço moral bem dirigido para consegui-lo, o indivíduo aflige-se nos conflitos existenciais, valorizando as reações e comportamentos negativos do convívio social.
                                                   
A sua ausência na agenda emocional significa primarismo evolutivo, a ingratidão é inferioridade moral que pede terapêutica especializada e cuidadosa, da mesma forma que ocorre com as enfermidades que sutilmente devoram as entranhas do ser humano.

O ingrato,  como efeito, sofre de ansiedade, de baixo nível de autoestima, de medo dos enfrentamentos, carregando complexo de inferioridade.

Quando ele é homenageado ou distinguido por afeições sinceras, ou mimoseado com algo, sofre e, interiormente soberbo, silencia o sentimento gratulatório, demonstrando o transtorno distimico que sofre... outras vezes, vivencia magoas ou desconforto emocional acreditando ter direito a mais deferência, e ao mesmo tempo inconscientemente inveja o outro, aquele generoso e amigo que quer o dignificar.

Suspeita a lealdade de qualquer afeição, buscando motivos falsos para justificar-se, pela falta de mérito que reconhece conscientemente, num paradoxo de conduta emocional.

Esconde-se numa aparência que disfarça os sentimentos, bloqueando as vias do relacionamento, mantendo atitudes agressivas e temerosas com que afasta as pessoas do seu círculo de amizade, já muito reduzido. E assim satisfaz-se na solidão até que, supervalorizando-se, faz-se falante, importante, chamando a atenção para os seus títulos de destaque, para depois dessa catarse glamourosa, voltar ao mutismo, à conduta desagradável.

Noutros momentos é gentil com os estranhos tendo por meta conquista-los com uma imagem bem projetada, sendo rude, logo depois de conseguir o objetivo.

Esses pacientes são encantadores fora do lar e  verdugos domésticos de convívio difícil.

A sombra neles predomina e asfixia as manifestações do self, para se manterem como vítimas da sociedade, como indivíduos incompreendidos.

A gratidão é sentimento nobre que vem das profundas nascentes da psique.


Todas as decisões superiores que dignificam o ser humano e a vida exteriorizam-se do psiquismo – o self – e são captadas pelo córtex posteromedial que transmite a mensagem por  redes neuronais, encarregadas de atender o impulso original, transformando-as em emoções de prazer, de felicidade.

Em poucos segundos atingem o ápice em relação às outras emoções que se expressam mais rapidamente na organização fisiológica.

Por isso, as emoções originadas na gratidão são de bem-estar, de alegria, compensando as despesas energéticas das neurotransmissões com ondas mentais harmoniosas e benéficas.

O hábito de ser grato, pela sua repetição, equilibra as descargas de adrenalina e de noradrenalina, enquanto o cortisol mantém o controle dessas substancias químicas neutralizando os excessos que poderiam ocorrer, produzindo em consequência alterações glicêmicas, do ritmo cardíaco... como acontece com as emoções inferiores como a ira, o medo, a ansiedade, a mágoa...

Através de reflexões sinceras o indivíduo pode render-se à gratidão, evitando condutas agressivas e atitudes mentais pessimistas.


Nessa analise, descobre-se quanto se possui digno de reconhecimento e quão pouco se necessita para uma vida plena. O essencial está sempre ao alcance do ser em evolução, sendo secundário o resultado da desmedida ambição egóica.

Com esse enfoque percebe faltas e carências que são valorizadas, produzindo sofrimento, por falta de entendimento da sua finalidade. Como as enfermidades, as ocorrências malsucedidas, os fenômenos aziagos que são parte do processo de crescimento moral e espiritual, consequentes das ações passadas originadas em existências pregressas.

Muitas vezes, uma decepção com alguém que é afeiçoado, ao invés de ser um mal torna-se um bem, porque o outro desvela-se, permitindo melhor o entender além da sombra em que se oculta.

Insucessos de um momento, quando bem administrados, transformam-se em lições de profunda sabedoria, libertando o ego de sua injunção afligente.


Tudo, que acontece, mesmo produzindo sensações desagradáveis ou emoções desconcertantes, é parte das experiências que promovem o ser humano, desde que se lhes compreenda a finalidade, expressando gratidão pela sua ocorrência. Não só o que traz prazer e sucesso merece gratulação, até porque é de breve curso mas também os que respondem pela insatisfação e pelo mal-estar...

A compreensão lúcida de que tudo tem um sentido moral e um significado relevante proporciona harmonia intima, trabalhando pela superação de como se encontra, para se alcançar a plenitude.

Por outro lado, muitas existências agraciadas por admiráveis tesouros, como equilíbrio orgânico e saúde, beleza, prestígio social e recursos econômicos, sofrem pelo excesso, caindo no tédio, nas fugas psicológicas levando esses privilegiados a quedas morais.

Deparam-se, em consequência, duas posturas: a que se caracteriza pela carência, pelo sofrimento, pela falta de vitórias materiais, que trazem alegria quando bem administrados, e a outra cheia de valores preciosos mas vazias de significado...

É indispensável, a entrega sem limites à gratidão, à alegria de aprender, a conquista da saúde integral em marcha para a conquista da individuação, da perfeita integração do eixo ego-self.

A psicologia da gratidão abre-se, num elenco de excelentes possibilidades que propiciam a felicidade do ser humano.

Texto de Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco no livro, Psicologia da gratidão. Trabalhado e editado por Adáuria Azevedo Farias. 24/02/2019.

domingo, 10 de fevereiro de 2019


GRAVITANDO EM TORNO DE DEUS
Aplicativos gratulatório

Quando se pensa nos aplicativos gratulatórios, o arquétipo correspondente organiza a história dos acontecimentos dando um novo passo na conquista da consciência. Não se trata de uma conquista convencional, mas de uma forma de melhor entender a realidade. Uma forma de se reconhecer a grandeza da vida, sua beleza e seu significado.

É natural certa nostalgia em torno da gratidão conforme a herança ancestral, devendo ser superada pelo sentimento de ser útil e  participar no crescimento da sociedade  toda como do indivíduo em particular.

O ser humano é um cocriador dos reflexos da realidade na história da evolução moral e espiritual toda que, muitas vezes, surge no inconsciente como sonhos arquetípicos, que se transformam em desviadores de metas a serem alcançadas.

Todos tem papeis importantes a desempenhar no universo, permitindo que a consciência reflita as ocorrências do cosmo e consiga introjetá-las na consciência individual, e depois na coletiva.
                                                    
Herdeiro de experiências pessoais, o ser humano é chamado a crescer em cada etapa do seu processo de desenvolvimento ético-moral, experienciando pequenos valores que se transformam em significados profundos. É natural querer produzir realizações de grande porte, capazes de provocar admiração, num processo de exaltação do ego, embora, sejam as de aparente pequeno valor que aprimoram o caráter e contribuem para a saúde emocional por estarem mais vivas no dia a dia existencial de cada um e de todos em geral.
A solidariedade, que encanta as massas, na comunicação midiática, raramente é exercitada como gratulatório, devendo criar o hábito de ser-se útil, de estar-se vigilante e lúcido sempre para ajudar, contribuindo com mudança do status quo vigente para um patamar histórico e moral mais elevado.

Redescobrir a solidariedade, participando ativamente dos labores coletivos e auxiliando com os recursos da compreensão, da bondade e do entendimento fraternal em torno das deficiências dos outros e das dificuldades enfrentadas pela maioria, ainda na infância psicológica, é conduta relevante e de alta magnitude. Essa cooperação se expressa pelo interesse de tornar a vida na Terra mais feliz, diminuindo as possibilidades de atritos e de desconforto moral, social e econômico, com a gentileza e o auxilio que se pode colocar a disposição de quem necessita.

Esse esforço traz ao ego a consciência da sua responsabilidade de superar a sombra e vincular-se ao self  numa dinâmica portadora de edificações significativas. Essa conduta traz para o indivíduo a alegria de viver, ajudando a libertar-se do estresse, evitando que caia na neurastenia ou na depressão.

Com o exercício do sentimento gratulatório, automatiza-se o comportamento que presente no inconsciente, agora exteriorizando-se sem  esforço em outras oportunidades.

A consciência objetiva (a psique) está sempre relacionada com a subjetividade do ego, sendo assim imprevisível, já o inconsciente com os estereótipos arquivados responde com significação esperada e que se deseja.

Ampliando o elenco da gratidão, vale considerar-se a ternura que vem perdendo espaço no comportamento dos indivíduos armados contra as ocorrências perturbadoras, e praticamente só é expressa nos relacionamentos mais íntimos, nos momentos de emoção afetiva especial entre os familiares e amigos próximos. A ternura, deveria ser uma conduta natural, irradiando gentileza e prazer no convívio com tudo e envolve o indivíduo: a natureza e suas expressões, os seres humanos, mesmo os inamistosos, que são atormentados pelos conflitos em que permanecem.

A ternura resulta da cultura e da vivencia das ações superiores do amor, que estabelece modelos de conduta enobrecedora, exteriorizando-se como simpatia e  generosidade.

Todos precisamos do estímulo e da ternura que mantém os relacionamentos nos momentos difíceis, as afeições quando se vão desgastando, interrompendo o fluxo da animosidade quando surge.

Nas uniões sexuais, por exemplo, um dos fatores de futuros desentendimentos é a falta de ternura no relacionamento entre os parceiros. Mais atraídos pelo prazer sexual, as pessoas quase não valorizam a convivência, porque são carentes afetivos interiores que esperam ser preenchidas pela outra, carentes afetivos interiores que também sofre da mesma falta da afetividade pessoal. Passadas as sensações do prazer valorizado, surgem os atritos solitários a dois, que se esquecem de ser solidários reciprocamente.

Sem a ternura que estreita os vínculos do amor entre os que constituem a parceria, o gozo desfrutado é passageiro e dá espaço  a aspirações diferentes, abrindo a mente a sonhos e ambições por outrem que lhe proporcione mais do que a febre do desejo e da realização rápida. Em consequência, nasce a insatisfação, a procura de alguém que seria o ideal mitológico da perfeição, sem lembrar que esse ser buscado com ansiedade por seu lado também está a desejar e buscar.

É o caso das pessoas que dizem estar esperando o ser real para se unir, crendo que essa é uma ambição geral. E como todos estão esperando que seja o outro o preenchedor do seu vazio existencial, cresce o numero dos solitários e insatisfeitos em todo lugar, mesmo na multidão, na família, nos vínculos da afetividade apressada...

A ternura propõe a preocupação que causa bem-estar, quando se pensa no outro, buscando a melhor maneira de fazê-lo feliz, mantendo a comunicação jovial, os toques afetuosos demonstrativos da necessidade da presença e da reciprocidade afetiva...

O tempo sem tempo de que todos se queixam hoje parece responsável pelas carências de todo tipo, quando na realidade é a falta da afetividade que tem criado as fugas psicológicas, as transferências para as coisas e os lugares, aplicando a oportunidade útil em buscas e  atividades secundárias frustradoras.

É indispensável encarar a própria deficiência afetiva e remontar às causas próximas e remotas, reservando-se momentos para o autoexame da consciência, para a transcendência, para o encontro com o si profundo.

Toda vez que a sombra mascara os sentimentos do indivíduo sem deixar que a realidade venha a tona, a fuga o mantém preso ao conveniente, ao que gostaria de ser, empurrando-o para o medo de ser desvelado, criando dessa forma conflito  desnecessário e de fácil eliminação, usando da coragem do discernimento para se assumir como se é, embora com limites e dificuldades, ou com as bênçãos e realizações já conquistadas.

Bom lembrar que a sombra vigilante está sempre armada contra as aquisições novas, como mecanismo de autodefesa para a sobrevivência, ocultando-se no ego. É muito importante portanto sempre o cuidado para identificar e trabalha-la, diluindo sua influencia e libertando-se  para assumir a própria realidade.

A gratidão contribui nessa batalha silenciosa que ocorre na psique, porque oferece uma visão ampla do mundo e profunda daqueles que fazem parte do circulo das amizades .  
Texto de Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco no livro, Psicologia da gratidão. Trabalhado e editado por Adáuria Azevedo Farias. 10/02/2019.





terça-feira, 5 de fevereiro de 2019


GRAVITANDO EM TORNO DE DEUS
Exercício da Gratidão

O conhecimento e a experiência de vida são resultado do treinamento, do exercício.
Quando o self – (ser imortal, o ser real, o espírito) - se encontra em desenvolvimento, as emoções se caracterizam ainda pelas heranças do instinto, se modificando aos poucos, até alcançar os  patamares do amor e da gratidão. As condutas humanas durante esse processo é natural que se encontrem ainda marcadas pelo egotismo que gera a ingratidão.

E assim sendo, o indivíduo atribui-se méritos que não conquistou ainda e tudo que ele recebe acha que é uma consequência desse seu mérito. A permanência ou continuação da sombra dificulta-lhe o discernimento, e lhe impõe situações embaraçosas e perversas. Esse transito  demorado vai modificando-se conforme vá unido às experiências edificantes  e acumulando como resultado do treinamento, a sim proporcionando lucidez, clareza, entendimento para a compreensão da felicidade depois de descobrir o significado existencial.
O único sentido, portanto, do ser humano, propõe como foco primordial, a emoção do amor que será alcançada. No oceano do amor, tudo se confunde em plenitude, em superação do ego e dos arquétipos perturbadores.

É urgente a necessidade de reservar espaço e tempo para treinar o perdão, e as outras expressões do amor, para que se descubra a alegria que, vem como efeito da ação de amar.

Para que se alcance esse objetivo, deve-se mergulhar no self para o encontro com a consciência, no início por meio de um monólogo e depois num diálogo edificante e iluminativo.

Jung estabeleceu cinco etapas para a aquisição da consciência, seu desenvolvimento na busca da vitória plena.

A primeira etapa ele chamou de participation mystique se refere à conquista da identificação entre a consciência do ser e tudo quanto lhe diz respeito no entorno da sua existência. É difícil viver no mundo sem essa interdependência entre ele e tudo à sua volta. Nesse sentido, a identificação é muito variada, considerando-se aqueles, que ainda vitimas das sensações, continuam vinculados aos objetos e vivencia-nos, sorrindo ou sofrendo. Alguém se identifica e se apaixona pela casa onde mora, pelo instrumento de arte a que se dedica, pelo automóvel ou outro veículo qualquer, passa a experimentar os sentimentos do si mesmo em relação a cada objeto. Outros se vinculam às suas famílias e experimentam sentimentos de introjeção e de projeção, além da própria identificação. Na segunda etapa, já existe a consciência do eu e do outro. Ao alcançar esse período em que se pode diferenciar o sujeito do objeto, o self  que se é em relação ao outro ser, passa a descobrir, a identificar as diferenças que constitui cada qual. Ainda aí se encontram os requisitos da projeção no outro, que se vai diluindo e favorecendo a identidade, na terceira etapa, as projeções transferem-se para símbolos, lições, princípios éticos, permitindo a compreensão do abstrato, como a realidade de Deus em alguma parte... O conceito desse deus, quando punitivo ou compensador, representa a projeção transferida dos pais para algo mais transcendente ou até mesmo mitológico. Na quarta etapa, ocorre a superação das projeções, ainda que marcadas pela transferência do abstrato e das ideias. É o momento do surgimento, do centro vazio, que seria o chamado de  o homem moderno em busca da sua alma. O indivíduo passa a viver o utilitarismo e o interesse imediato, substituindo assim as projeções anteriores. Nesse momento, predominam o prazer e os desejos de fácil controle, podendo ocorrer, se não se permitem essas sensações-emoções, os transtornos depressivos. Nesse mundo novo não existem conteúdos psíquicos, cada qual se sente realista. Nesse momento o ego se sente como sendo o próprio deus, capaz de fazer e concluir sempre de maneira pessoal tudo que  lhe diz respeito, escolhendo o que é verdadeiro ou não, o que merece ser valorizado ou desprezado... Com esse comportamento egóico, facilmente comete equívocos, vindos da autopresunção, dos julgamentos precipitados a respeito dos outros, caminhando para uma megalomania. Perdendo o controle anterior das convenções sociais em relação aos demais indivíduos e aos padrões de comportamento aceitos e convencionados. Mas nem todos, no desenvolvimento da sua consciência, atingem essa etapa, ficando somente nas iniciais. Por fim, na quinta etapa, quando já se encontra amadurecido psicologicamente, o indivíduo passa à reintegração da consciência com a inconsciência, descobrindo os seus limites – do ego -, atingindo o que chamaríamos como uma fase de atualidade, conseguindo a função transcendente e o símbolo unificador.  Livre dos arquétipos em imagens que caracterizam o outro, conforme a experiência da etapa anterior, a quarta, identifica os poderes do inconsciente. Nessa fase de modernidade ou de atualidade, a consciência identifica a vida psíquica nas projeções, não mais compostas nos substratos materiais ou mesmo deles formadas,  mas a realidade de si mesma. Mas o  mestre, não para por aí, parecendo propor outras etapas, conforme Joanna de Angelis, é interessante que fiquemos com essas, que é o objetivo do presente trabalho.

Nessa fase quando a consciência identifica o inconsciente e fundem-se, surgem as aspirações do belo, do ideal, do uno, da individuação.

Para se conseguir a plenitude, o sentimento de gratidão à vida, a todos que contribuíram e contribuem para um mundo seja melhor e as dificuldades sejam sanadas, que ofereceram sua ajuda no transcurso do desenvolvimento intelecto-moral, transforma-se num impulso para o estado numinoso, onde não existe mais  sombra. Mas, para vivenciar essa conquista, torna-se indispensável o treinamento constante, o exercício da gratidão.

No seu inicio, como um ato de dever, o de retribuição por tudo que se desfruta, sem ainda a presença do sentimento por falta de maturidade psicológica interior. No entanto o hábito, em formação estimula a continuação da valorização dos acontecimentos e das pessoas com as quais se convive, alargando a percepção de que esse sentido de fraternidade gentil e retributiva traz inigualável alegria de viver.

Criado o estímulo gratulatório, tudo adquire significado relevante, trazendo um entendimento mais saudável a respeito dos acontecimentos existenciais, mesmo aqueles  que se apresentem como sofrimento, isto é, que no  momento tem caráter afligente ou desagradável, que pode ser superado pelo esforço de ser-se útil, de compreender o esforço dos demais na construção do mundo melhor, entender-lhes os fracassos e os insistentes sacrifícios para corrigir-se...

Habitualmente, o julgamento da conduta dos outros, em análise quando se refere a questões perturbadoras contra alguém, se faz de maneira equivocada, por certo a manifestação da conduta do outro, do que se lhe fez inamistoso, realizando uma projeção inconsciente dos seus próprios conflitos... Todos temos dificuldades em vencer as questões perturbadoras, em especial quando vem dos atavismos do passado por onde passou. A tolerância, que é uma expressão de amizade inicial, vai fazer entender-se que como não é fácil para si mesmo a mudança para melhor, deve ser também quando no caso for o outro.

Tentando-se, mesmo com erros e acertos,  exercitar a gratidão, chega um momento em que o ser se enche de alegria de ser gentil e agradecido, não só por palavras, mas principalmente por atitudes, tornando a vida agradável e, assim, ampliando o circulo de bem-estar em sua volta, mudando as paisagens emocionais desorganizadas.

A gratidão tem esse poder de tornar o mundo e as pessoas mais belas e mais queridas.  
Texto de Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco no livro, Psicologia da gratidão. Trabalhado e editado por Adáuria Azevedo Farias. 05/02/2019.