segunda-feira, 7 de julho de 2014



GRATIDÃO COMO NORMA DE CONDUTA

Do ponto de vista teológico considera-se a gratidão  uma virtude igual às outras, como a fé, a esperança e a caridade.
Uma observação cuidadosa vai perceber que, para se ser grato, é necessário ter fé, ter certeza do significado da vida, dos seus valores e possibilidades; precisa acreditar no ser humano, considerando que, se encontra no momento em transição para conquistas mais importantes, merece apoio e consideração que o ajudem a autossuperar-se, alcançando mais elevado degrau da evolução. Da mesma forma, no ato gratulatório encontra-se a esperança que aformoseia a vida, apresentando o futuro como algo a alcançar pela vivencia dos sentimentos enobrecedores, a certeza de que vale a pena todo e qualquer investimento que dignifica. E,  torna-se presente a essência da caridade, que é o significado do ato de agradecer, expressando o amor que é vital para quaisquer investimento moral e espiritual. Sem essa presença, a gratidão é pobre de vigor e de enriquecimento emocional.
Cada experiência vivenciada no processo da evolução, como ocorre com a gratidão, representa uma forma adequada de amadurecimento psicológico, capaz de produzir harmonia interior e estimular o esforço para o autocrescimento.
Preso ainda às heranças do primarismo, o self se esforça por sublimar a sua sombra, enquanto influencia o ego a respeito da necessidade de autotransformação das metas próximas para as transcendentes. Desmaterializar as ambições egoicas para transcendê-las em forma de aspirações psicológicas profundas que dão significado à vida deve ser-lhe o constante esforço no seu relacionamento com a persona. Fixada em interesses imediatos de respostas agradáveis, mesmo que mentirosas, a persona se satisfaz em se manter vibrante, mesmo quando percebe não poder esconder as necessidades emocionais dos que se submetem cativos ao seu encantamento. Vestir-se de realidade, despindo-se das fantasias e dos mitos enganosos, deve ser sempre a proposta do si profundo, por conhecer que é legítimo e oferece harmonia em relação ao que é prazeroso, mas de gosto amargo e doentio para a emoção.
Ninguém pode viver ocultando a sua realidade, por isso o tempo, na sua corrida inevitável, sempre retira os véus que disfarçam os contornos da existência e obscurecem a percepção da sua autenticidade.
É essa teimosa fuga de si mesmo que abre espaço a muitos conflitos e transtornos na área do comportamento das criaturas, pelo consumo de energia emocional para parecer, em vez de aplicá-la no esforço natural criativo e renovador para ser.
Arquétipos novos podem ser gerados, favorecendo a construção dos significados da evolução, enquanto outros os perturbadores vão cedendo lugar às novas formulações que proporcionam inexprimível alegria pelo seu cultivo.
Quando se é capaz de autoenfrentamento sem receio e como fenômeno do autoamor, muitos tesouros da emoção podem ser descobertos e a alegria de viver deixa de ser pelo consumismo e pela troca de quinquilharias para conquistar conteúdos importantes de amor, de troca, de paz e de gratidão.
A gratidão envolve-se em força estimuladora para todos os empreendimentos da vida, tornando-se  norma de conduta.
Quem é grato, naturalmente é abençoado pela felicidade, pela saúde, esparzindo as ondas de bem-estar que o envolve, contaminando todos aqueles que lhe rodeiam. Normalmente, as referencias se referem ao contágio do mal, das doenças, dos desgostos, da infelicidade, embora também ocorra o que se refere à alegria, à esperança, à comunicação jubilosa, ao serviço construtivo e à conquista da saúde.
A convivência com pessoas saudáveis permite impregnação de estímulos que já não funcionavam. Diante de alguém que sorrir abençoado pela conquista da harmonia pessoal, todos sentem um imenso desejo de alegrar-se também, de participar do festival do júbilo como ocorre ao botão de rosa que desata as pétalas, exteriorizando o perfume que lhe é inerente, abrindo-se delicadamente à luz do Sol.
Na etapa final da imaginação ativa é preciso que cada um realize a sua experiência para que as verdades profundas se transformem em realidade. É o caso da gratidão, que precisa ser vivenciada, já que não pode ser definida por palavras, de forma que o outro a possa sentir ou até entender.
Kierkegaard dizia que ninguém pode dar a fé ao outro. Porque é uma conquista pessoal, intransferível. Dessa forma é possível, crer-se no inacreditável, e estão embutidos aí todos os tabus e superstições que afloram do inconsciente coletivo e assumem realidade na imaginação daqueles que acreditam. Essas heranças arquetípicas encontram-se de tal modo vivas no inconsciente que, quando ressumam ou vem a tona, modificam-se para realidades que impregnam aqueles que as vivenciam.
O mesmo dizemos da gratidão. É uma experiência pessoal, embora possa também se expressar coletivamente, não é resultado de nenhuma herança arquetípica, sendo sim uma conquista do self, expressando libertação do comportamento egoísta. Há conquistas que somente se originam na experiência, embora possam ser formuladas teoricamente, tornando-se válidas apenas quando passam pela vivência.
Jung dizia,
“que cada avanço, mesmo o menor, através deste caminho de realização consciente, acrescenta muito para o mundo.”
Para que o indivíduo se livre dos conflitos, especialmente dos geradores da ingratidão, é preciso que tenha vida interior, que se organize internamente para expressar ao mundo aquilo que busca e alcançará. Não há motivo para desconhecer o conflito, mas sim enfrentá-lo, envolvendo-o nos ideais e aspirações, reunindo a dualidade (gratidão e ingratidão) num todo harmônico, transformando-a em unidade (sentimento de gratidão) que passará a vigorar no dia a dia existencial.
Muitas vezes a gratidão se apresentará como um paradoxo. Por que se vai agradecer, quando se pode continuar no prazer? Porque o prazer cansa, perde o sentido, produz o tédio, exige renovação. Nenhum prazer tem espaço no consciente sem haver uma perfeita liberação do inconsciente, identificação dos fatores que o produzem, dentre os quais as pessoas, as circunstancias envolvidas. Desconhecer todas essas condições é manter-se em delírio afastado da realidade, que se impõe pela própria razão de ser. A gratidão, pode parecer paradoxal, por manifestar-se também quando cessa o prazer, quando surgem a dor e a desdita, como sentido natural do processo da vida. Não fosse assim se viveria em uma fantasia ativa que sempre alcançará a realidade existencial.
Nenhum paradoxo, na gratidão em todas e quaisquer circunstancias, como sentimento de júbilo pela presença da vida que estua triunfante.
Por fim, aplique-se o enunciado de Nietzsche, quando diz:
“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio. Ninguém, exceto tu!”.
Texto trabalhado do livro PSICOLOGIA DA GRATIDÃO, escrito por Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.
Postado no dia, 07/07/2014.

sábado, 5 de julho de 2014


GRATIDÃO A CURTO E A LONGO PRAZO
As emoções são reflexos do self, exteriorizando as construções e ideações mentais.
Quanto mais diluída a sombra que se lhe integra através da evolução, mais fortes emoções serão possíveis.
Vindo a tona as fixações perturbadoras do inconsciente pessoal e do coletivo, mais necessário se torna administrá-las pela sua substituição através de formulações opostas, que irão sendo superadas no transcurso do tempo, através da repetição. O exercício de qualquer função é sempre o meio mais hábil para que se faça a sua necessária fixação, tornando-se um hábito novo que se desenha no comportamento.
Sendo essa a educação mental que proporciona renovação moral.
A saúde emocional, torna-se assim, consequência do esforço do self, quando se resolve pela mudança de atitude diante da vida não mais aceitando os condicionamentos perniciosos, os vícios morais, as atitudes de agressividade e de perturbação.
Os conflitos, que são as heranças doentias do ego e da sombra, quando delinquiram, são psicoterapeuticamente transformados em segurança pessoal, em harmonia do comportamento – mente e emoção -, pelo empenho do self dando lugar ao bem-estar que se apresenta como saúde interior.
Por isso os velhos refrões: pensa no bem e o bem te acontecerá, tanto quanto pensa no mal e o pior te tornarás tornam-se fenômenos da conduta do self na manutenção dos equipamentos delicados da emoção.
O pensamento é assim um dínamo gerador de ondas que movimentam a maquinaria orgânica, exteriorizando-se dos neurônios cerebrais em direção ao sistema nervoso central, que as envia às glândulas endócrinas, e, por fim, vibrando no sistema imunológico, por extensão, repercutindo no emocional e dando lugar a efeitos perfeitamente equivalentes.
Pensamento é força dinâmica e vital.
O que se fixa no pensamento, a vida responde em forma de ideoplastia ou concretiza-se inconscientemente, desde que o automatismo da repetição na mente faz-se responsável pela condução a que o indivíduo se entrega.
No que diz respeito aos fenômenos psicológicos de pequena ou de grande monta, ei-los que se traduzem como sentimentos de variada expressão, desde aqueles que consomem as energias, resultando em depressões, distúrbios do pânico, pavores diversos, síndromes de Parkinson e de Alzheimer ou esperança, alegria, equilíbrio, gratidão...
A gratidão moral é de suma importância para o engrandecimento do self. Isto é: a lúcida compreensão da conduta irregular de outrem, ao lado da tolerância e da humildade pessoal proporcionam o reconhecimento de que cada qual se comporta de acordo com o seu nível de consciência e o seu estágio intelecto-moral.
Compreende-se, desse modo, que um gênero de gratidão desconhecido é o perdão real.
Para que se expresse esse sentimento nobre – o perdão! -, é imprescindível maturidade emocional, compreensão da realidade da existência, respeito ético pelo próximo, cultura de compaixão, sem o que muito dificilmente pode ser exercido.
Quando o amor se expande, o perdão torna-se  natural, pois quando se espalha a afetividade supera qualquer limite imposto pelas convenções e se transforma num oceano de generosidade.
Quando alguém preserva o ressentimento em relação a outrem que não lhe correspondeu à expectativa, crendo-se em postura melhor, supondo-se merecedor de mais especial consideração, na realidade se encontra no mesmo nível, porque a mágoa é escara moral de inferioridade e de presunção...
 A diferença, entre o que perdoa e o que é perdoado é que o primeiro se encontra em patamar superior  de evolução, podendo estar aberto ao retorno do ofensor, sem nenhuma censura ou reprimenda, o que corresponde ao legítimo esquecimento do mal para somente recordar do bem edificante.
O perdão dignifica aquele que o favorece, como necessidade de conceder ao outro o pleno direito de caminhar conforme as próprias possibilidades.
A luz sempre dilui sem alarde a sombra da ignorância, da maldade, da perversidade...
A gratidão a curto prazo logo se faz um verdadeiro automatismo, no receber e no retribuir, no oferecer antes de conseguir, no ato de estar-se livre para a vida.
Quando, ao contrário, espera-se a retribuição, vive-se a síndrome de Peter Pan, mantendo-se interessado em coisas e negando-se ao amadurecimento, à reflexão, à autodoação que dignificam.
A largo prazo, a gratidão irisa-se de sabedoria para enriquecer a sociedade com as bênçãos do conhecimento e do amor, como resultado de um grande esforço para atingir a meta que lhe faculte servir com abnegação e devotamento.
O profissional de qualquer área que aplica largo período da existência preparando-se para adquirir conhecimentos e habilidades específicas para serem aplicadas posteriormente, alcança o patamar da gratidão que ajuda a satisfação pessoal, o progresso dos demais indivíduos e, por extensão, da humanidade.
De maneira pessimista, alguém enunciou que a Terra é um grande hospital, sem perceber que essa conclusão  resulta de uma ótica moral distorcida a respeito da realidade, que é sempre promissora e rica de oportunidades felizes.
Podemos dizer que a Terra é uma escola de bênçãos, onde ocorre o aprimoramento moral e espiritual do ser na direção do estado numinoso que o aguarda.
Esse estado é o nível superior de integração do eixo ego-self alcançando a sua plenitude.
Todo esforço, dirigido para a conquista do padrão de equilíbrio emocional através dos sentimentos edificantes deve ser considerado para o encontro com o si profundo, transmudando as experiências perturbadoras em conquistas relevantes, capazes de alterar toda estrutura do comportamento.
O self traz condições inatas para essa realização, porque vem de conquistas contínuas no longo processo de desenvolvimento das suas possibilidades de realização plena.
Texto trabalhado do livro PSICOLOGIA DA GRATIDÃO, escrito por Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.
Postado dia 05/07/2014.

sexta-feira, 4 de julho de 2014


TÉCNICAS DA GRATIDÃO

A gratidão é como uma condição para ser feliz, de acordo com a definição de Albert Schwetzer, acrescentando ser ela o segredo da vida.
Ele, mas que qualquer pessoa, sempre bendizia a vida, apesar daqueles dias nem sempre confortáveis em Lambaréné, na África Equatorial Francesa, onde mantinha a sua obra de dignificação humana.
Europeu da cidade de Kaysersberg, na Alsácia, ao transferir-se com a esposa para aquela região hostil, experimentou o áspero clima tropical, a elevada humidade do ar, na floresta densa, as condições quase inóspita para alguém que sempre vivera em região fria e civilizada, a falta de recursos para qualquer tipo de comodidade, e, apesar de tudo, manteve o sentimento de gratidão viva em sua existência, cantando louvores a Deus.
Foii ali, em condições desafiadoras que ele escreveu duas obras monumentais: A busca do Jesus histórico e um tratado de ética dos mais belos do século XX.
A sua ética estava expressa no conceito: respeito pala vida, que ele defendia com sacrifícios até o máximo possível.
Uma análise das bênçãos que a existência física proporciona seria suficiente para se agradecer por se estar vivo no corpo; pelo ar que se respira; a água, o pão que a natureza fornece, ao lado das maravilhas de que se veste o cosmo; as noites estreladas, a poderosa força mantenedora do Sol e a tranquilidade magnética da lua, a brisa refrescante, a chuva generosa, a temperatura agradável... Tudo que vibra e que merece gratidão.
É certo que existem os desastres sísmicos, as tormentas de vário porte, que também são dignos de reconhecimento,  facultando a valorização do que é saudável e dignificante.
Fossem apenas agradáveis todos os fenômenos existenciais e não haveria mecanismo válido para se promover o progresso moral do ser assim como o desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade.
Envolto no escafandro material, o self é candidato à superação das circunstancias, trabalhando-se com afinco para alcançar a plenitude da sua função indestrutiva.
Inspirando o ego a modificar a estrutura do comportamento, faculta-lhe, ao largo do tempo, a visão inspiradora do desenvolvimento interno, diluindo a sombra que também se lhe torna motivação para a conquista de novas experiências, proporcionando-se bem-estar, que é essencial para uma existência compensadora.
A busca dessa sensação de alegria e de satisfação transforma-se num motivo estimulante ao ego, mesmo que relutante, porque a ausência desses pequenos prazeres aumenta o sentimento de culpa, frustra a autorrealização, empurra para transtornos complexos e mórbidos, que se transformam em enfermidades orgânicas por somatização.
É nesse embate que surge a necessidade da gratidão, não apenas em relação ao que se recebe, mas, sobretudo pelo que é possível oferecer-se, participando do espetáculo da vida em sociedade na condição de membro atuante e não de parasita prejudicial.
Sempre há quem justifique não possuir muito para repartir, olvidando-se que a maior doação é aquela que nasce na grandeza do pouco, qual a referência evangélica em torno da oferenda da viúva pobre. Mesmo ela possuía algo para doar ao templo, cumprindo a lei que assim o estatuía.
Dádivas outras, não menos valiosas, consistiam na oferta do trabalho de limpeza do santuário, dos lugares em que os outros pisavam, na conservação dos objetos do culto, nos cuidados reservados a tudo que dizia respeito ao templo, em razão de não possuírem sequer a liberdade ou porque rastejassem nas situações humilhantes do serviço detestado pelos vãos e orgulhosos sacerdotes, ricos de presunção e pobres de sentimentos...
A gratidão pode também se expressar de forma especial, como sendo respeito e apreço, consideração e amizade, singelos padrões de comportamento social que devem existir em todo grupo humano.
O hábito de retribuir dádivas restringiu o sentimento gratulatório, tirando-lhe a beleza emocional. Claro está que dividir o que se tem com quem também oferece representa um passo avançado na psicologia da gratidão. Entretanto, merece que seja considerada a oferta que nasce do coração, sem nenhuma outra motivação material que seja retribuição, transformando-se em oferta da gentileza, da alegria de viver, porque se faz parte da orquestra viva da sociedade.
Esses gestos espontâneos contribuem para a felicidade que se aspira, gerando situações positivas na existência, por modificarem os sentimentos do gentil doador, que se aureola de harmonia, porquanto o doar é sempre acompanhado pela imensa satisfação de assim proceder.
Todo aquele que aspira alcançar o planalto da saúde e da harmonia é convidado a exercitar-se na arte de oferecer e de oferecer-se.
 Em Atos dos apóstolos, dentre muitos outros há um momento encantador, quando Pedro e João saem do Templo de Jerusalém e os pobres, os enfermos, os aflitos distendem-lhes as mãos, suplicando auxilio monetário, especialmente um coxo que aguardava a esmola em forma de moeda.
Percebendo-se destituído desses recursos, Pedro, com ênfase, olhando João, disse ao sofredor: “Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (At 3:6)
Ante o assombro geral, o enfermo recuperou os movimentos, deslindou os membros paralisados e ergue-se jubilosamente...
A partir daí, dessa dádiva de amor, as pessoas colocavam os seus pacientes por onde os dois passavam, a fim de que “a sua sombra cobrisse alguns deles” (At 5:15), na expectativa de que os curasse.
Todas as coisas são boas e merecem respeito, no entanto aquelas que são conseguidas como dádivas do sentimento, que não são compradas, possuem um valor emocional muito maior.
Desse modo, ninguém se pode escusar de oferecer algo de si mesmo, contribuindo para o bem-estar geral, que começa no ato da oferta.
É sempre melhor doar do que receber, porquanto aquele que doa é possuidor, ocorrendo com quem recebe a situação de devedor, e uma das maiores dívidas que existem é a da gratidão, porque um socorro em momento especial define todo rumo da existência, que passa a dignificar-se, a crescer, a produzir, após esse instante significativo.
Quando se mata a fome ou a sede, oferece-se segurança e trabalho a quem os necessita, doa-se paz e alegria de viver àquele que se encontra à borda do desespero suicida, tudo quanto lhe vem a suceder é fruto daquele gesto salvador.
A dívida, pois, ao que recebeu não pode ser resgatada senão por outra vida.
Narra-se que um indiano, que tivera o filho assassinado por um paquistanês, nos hórridos dias da guerra entre as duas nações, buscou o Mahatma Gandhi e contou-lhe a tragédia que se permitiu, rogando-lhe ajuda, orientação.
O sábio mestre meditou e respondeu:
- A única maneira de resgatar o seu crime é educar uma criança órfã paquistanesa como se fora seu filho.
O interrogante argumentou:
- Mas somos inimigos e um deles matou o meu filho.
Tranquilo, redarguiu o mestre:
- Tornamo-nos inimigos uns dos outros porque isso nos compraz. Somente porque o alucinado matou o seu filho, você não tem nenhum direito de retribuir-lhe o crime, tornando-se igualmente homicida.
O homem, sensibilizado, adotou uma criança paquistanesa e dela fez um cidadão de bem.  

Texto trabalhado do livro PSICOLOGIA DA GRATIDÃO, escrito por Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.
Postado no dia, 04/07/2014.

 

O BEM E O MAL 

Desde quando a razão e a consciência começaram a desenvolver-se no ser humano, a dicotomia do bem e do mal se apresentou de maneira conflitiva.
Antes, no período da vivência no mitológico Jardim do Éden, a inocência não pôde identificar o que significava o bem, o que representava o mal, motivado pelo estado paradisíaco de total ignorância moral. No momento em que os impulsos, especialmente os da sexualidade, quebraram a harmonia existente, impondo-se, tudo era natural, porque defluente das necessidades biológicas. Aos poucos, os sentimentos e o discernimento apresentaram-se para estabelecer o que era edificante em relação ao que se fazia perturbador e destrutivo. Nesse surgimento do Self, percebeu-se a necessidade de estabelecer-se critérios, iniciando-se pela condenação do incesto, proibindo-se e impedindo-se comportamentos que se consideravam perniciosos, dando lugar ao claro-escuro da fronteira entre o bem e o mal.
Com a sucessão do tempo, estabeleceram-se diretrizes definidoras do que representa um como o outro valor.
As diversas doutrinas religiosas do oriente e as filosofias do ocidente apresentaram normativas de significação para a felicidade e a vivencia do que se considerava o bem em detrimento dos comportamentos que produzem o mal.
O maniqueísmo, por exemplo, criado por Manés, nascido na Pérsia, no século lll d.C. depois do aparecimento de um anjo, por duas vezes, levou-o a selecionar os princípios de algumas doutrinas orientais existentes, do zoroastrismo e do cristianismo, estabelecendo que o bem e o mal estão presentes na vida de todos os indivíduos e que o mundo encontra-se dividido exclusivamente nessas duas constantes, sendo o objetivo da existência a vitória da luz contra a treva, da verdade contra a impostura...
O maniqueísmo espalhou-se com muita facilidade pelo mundo de então, apresentado os dois lados do comportamento em forma de sombra e de claridade, no qual os justos, que a tudo renunciassem, atingiriam a plenitude.
Embora o cristianismo, muito antes, mantivesse, de certo modo, a mesma observância, o conceito de Jesus a esse respeito é mais amplo, demonstrando que todas as experiências humanas contribuem para o processo de libertação do ser, da ignorância que nele predomina, sendo o mal uma conjuntura transitória, na qual somente o bem tem prevalência. O apóstolo Paulo, por sua vez, prescreveu que se deve vencer o mal com o bem.
Essas propostas, especialmente a maniqueísta, ainda em voga, são portadoras de comportamentos fanáticos, definitivos, gerando graves conflitos na cultura, na sociedade, porque, aquilo e aquele que são bons, que representam o bem para determinado segmento humano, são maus para outro...
Condutas consideradas aceitas e dignas em um povo recebem reproche de outro, que as tem em condição de agressividade e de primitivismo.
Esses conceitos, não podem ser considerados de modo absoluto.
Qual o significado do bem? Tudo o que contribui em favor da vida, do seu desenvolvimento ético e moral, a sua construção edificante e propiciadora de satisfações emocionais, é considerado como o bem. Necessário, evitar confundir o de natureza física com a emoção de harmonia, de equilíbrio interior, de felicidade que se adquire por meio de pensamentos, palavras e ações dignificantes, não geradoras de culpa.
O mal é tudo quanto gera aflição, que se transforma em problema, que trabalha pelo prejuízo de outrem e do grupo social, levando ao desconforto moral, à destruição... Do ponto de vista educacional, se for observada criteriosamente essa ocorrência, poder-se-á constatar que muito mal de determinado momento, administrado corretamente pode transformar-se em grande bem. Por outro lado, o que pode parecer um mal para determinado indivíduo, proporciona-lhe o despertar da consciência, o caminho que o levará ao autodescobrimento.
A dificuldade, em diferenciar-se no íntimo, o que é bem e o que é mal, dá origem à sombra, que também tem raízes no ego dominador e arbitrário.
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, interrogou os Espíritos superiores, conforme a questão de nº 630:
Como se pode distinguir o bem do mal?
E eles responderam:
“O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la.”
O ser humano é portador de fenômenos lógicos, que nem sempre sabe discernir, que se apresentam conscientes e inconscientes. Inicialmente, no processo evolutivo era todo instinto e paixão adquirindo através do desenvolvimento antropológico da evolução a consciência de si, a conquista da razão, dentro de uma área restrita, que ainda não pode abarcar a totalidade das ocorrências interiores e emocionais, auxiliando-o no comportamento mais compatível com o estágio de lucidez alcançada.
No seu íntimo estão os desejos do prazer ou gozo e a realidade, conforme conclui Freud. Esses impulsos dominadores têm, no entanto que enfrentar a cultura de cada época, os hábitos estabelecidos, os códigos impostos, dando lugar a que as pulsões fossem erradamente consideradas como manifestações demoníacas, forças que o arrastariam para o sofrimento, mais tarde decodificado como o Inferno das religiões castradoras.
Para superar o mal que nele existe, vem-se tornando necessário que estabeleça variados símbolos de transferência ou de projeção, para superar a situação incomoda em que transita. Por isso, os sentimentos perversos do ódio, dos desejos irrefreáveis, dos ciúmes, das ambições desmedidas levam-no a transferi-los para outros indivíduos que passam a figurar como as representações demoníacas ou satânicas, suas adversárias. É certo que esse mecanismo ocorre de maneira inconsciente, em forma de fuga da situação vigente para a transformação dirigida ao bem que busca inconscientemente.
Nessa visão torpe e insensata, surge a luta feroz, mediante a qual o bem deve destruir o mal, na qual se devem envidar todos os esforços, mesmo os mais infames para a vitória, que não passa de derrota interior, porque os mecanismos de batalha são nefastos, portanto, igualmente maus...
Esse fenômeno sempre ocorre quando se deseja exterminar um adversário, que pode ser um indivíduo como uma raça inteira, uma ideia como um grupo idealista, apresentando-a na condição de personificação demoníaca contra a qual todas as armas podem e devem ser utilizadas a fim de aniquilá-los.
A substituição do mal pelo bem, ainda conforme o conceito paulino, é o mais eficiente recurso para que se estabeleça o equilíbrio emocional no indivíduo e no grupamento no qual se encontra.
Toda vez, que alguém se coloca contra algo ou alguém, é inevitável que se arme, o que se transforma num mal. Toda via, quando se põe a favor do bem, desarma-se e logo ama, o que modifica totalmente a questão, demonstrando a excelência do seu propósito.
Há uma regra para melhor identificar-se o bem em relação ao mal, que é a utilização do amor em seu sentido amplo e universal, que oferece a resposta mais hábil para a condução equilibrada de si e o trabalho generalizado em favor de todos.
Nesse momento, alcança-se a consciência moral, que discerne o que se deve e o que se pode fazer, em relação ao que se pode, mas não se deve fazer, ou se deve, mas não se pode fazer...
Através das reencarnações, o Espirito aprende a compreender o que o auxilia na evolução, o que o entorpece e o retarda, assim identificando os mecanismos poderosos para a libertação da psique do primarismo dos instintos – demônios – ensejando-lhe a claridade do esclarecimento – a angelitude.
A imago Dei, que nele se encontra, traz-lhe a pulsão do bem, da vida, que rompe as camadas grosseiras das tecelagens cerebrais, a fim de expressar-se em pensamentos, palavras e ações, que assinalam o estágio de saúde real ou de patologias defluentes dos comportamentos impostos pelos instintos.
Responsável pelo amplo discernimento auxilia a racionalizar o mal, mediante a observância dos resultados dele advindos e dos instrumentos que poderiam ter sido utilizados para efeitos mais consentâneos com o bem- estar e o prazer, ao invés da culpa, do arrependimento e da angustia que se lhe instalam no íntimo...
A individuação apresenta-se, a partir desse momento, como todo esse esforço para a união das duas pulsões em uma única expressão de vida, que é aquela encarregada de propiciar harmonia, eliminando ou superando os desvios do passado que respondem pelos sofrimentos e conflitos tanto individuais como coletivos.
O estado numinoso, desse modo, resulta da vivencia do bem, portanto, simbolicamente da luz, do entendimento, da consciência de si.
A dualidade do bem e do mal no ser humano é fenômeno natural de desenvolvimento da psique, apresentando situações antagônicas, como alto e baixo, belo e feio claro e escuro, bom e mal, certo e errado...
Jesus, o incomum, psicoterapeuta, utilizou-se de uma bela imagem para essa dualidade quando se referiu ao joio e ao trigo, portanto, àquilo que é danoso na seara e o que é benéfico, porque fomentador de vida. Ao mesmo tempo, propôs que não se resistisse ao mal, ao que equivale dizer, que através da ação cordial e perseverante, sem entrar em oposição ao pernicioso, consegue-se a situação ideal, a vitória sobre o que é prejudicial.
O bem, portanto, não é ausência do mal assim como o mal não pode ser considerado como fora do bem, mas experiências que podem ser conduzidas criteriosamente pela consciência para a autoconquista.
Muitas vezes, em face da ausência de consciência moral, o indivíduo interpreta equivocadamente uma ou outra dessas situações, sendo, portanto, a responsabilidade da escolha conforme o nível de conhecimento, de estrutura moral e espiritual.
Do ponto de vista psicológico, a adoção do bem representa saúde emocional e discernimento moral, ambos propiciadores de bem-estar, dando significado à existência, porquanto, à medida que o indivíduo se educa, disciplinando os impulsos  decorrentes do primarismo, experiencia verdadeiro estado de plenitude. Isso não o impede de viver momentos de definição, de dúvida, de incerteza, avançando, porém, na linha direcional do equilíbrio que se impôs.
Pensa-se, erradamente, que a prática do bem impede que o mal se apresente. Enquanto não for diluído nos painéis do inconsciente, periodicamente ressuma, em forma da fissão da psique, como força demoníaca que deve ser orientada, jamais impedida. Reconhecer, portanto, a presença do mal no Si- mesmo já é uma forma de identificar o bem.
Igualmente se confunde o não fazer-se o mal como um grande bem, quando, em verdade, não fazer o bem constitui um tremendo mal, não bastando, portanto, apenas deixar-se de o mal praticar.
Toda vez que se pode iluminar, espraiar o trigo  generoso e não se realiza esse dever, amplia-se a área de sombra e domina o escalracho prejudicial.
E como regra fundamental, para que ninguém tenha dúvida quanto a um e outro no cotidiano, asseverou Jesus com sabedoria: “Vede o que queríeis que vos fizessem ou não vos fizessem. Tudo se resume nisso. Não vos enganareis.” (O Livro dos Espíritos, resposta à questão nº 632).
Texto trabalhado com base no livro EM BUSCA DA VERDADE, escrito por Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.

Postado no dia 02/07/2014.

quarta-feira, 2 de julho de 2014


JESUS; O HOMEM 

Enquanto algumas vertentes religiosas têm-No como a própria divindade, Joanna de Ângelis no livro: Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda, na página 105, apresenta Jesus na condição de homem, não de Deus, considerando que “Jesus e Deus são independentes: um é ser criado e o outro é o Criador”. A Sombra Coletiva que pairava, não conseguindo entender e aceitar a plenitude vivenciada por um ser humano, ressuscitou “a mitologia arquetípica primitiva, atribuindo ao homem a perfeição absoluta de Deus...”

As tentativas de “divinizar o humano” ou “humanizar o divino” não são novas, especialmente em algumas culturas orientais. No Bhagavad Gita (2002, pg 111), livro de profundos ensinamentos da tradição hindu, Arjuna dirige-se a Krishna da seguinte forma: “Em verdade, Tú és Parabran, o Senhor Supremo! Os deuses, anjos e sábios reconhecem-Te como o Refúgio universal, a mais elevada Morada, Eterno Criador, Ser Absoluto Puríssimo, Onipotente, Onisciente, Onipresente!

Sem condenar os que veem seus mestres e gurus como deuses, como até hoje acontece em algumas culturas, vale destacar que a humanidade de Jesus, em vez de diminuir a sua importância, confere-Lhe um caráter muito mais significativo, pois não tivesse Ele vivido em iguais condições as dores e tragédias humanas, não tivesse suportado e superado todo tipo de desafios comuns à existência, os Seus teriam sido feitos extraordinários, mais distantes da nossa realidade.

Complementa Joanna de Ângelis no livro, Jesus e o Evangelho à Luz da Doutrina Espírita, na pg 72: “Jesus viveu a Sua humanidade com singular elevação, suportando fome, dor, abandono e morte sem impacientar-se, submisso e confiante, ultrapassando todas as barreiras então conhecidas a respeito das resistências humanas...” E a forma como viveu Sua humanidade nos possibilita extrair as mais belas lições da natureza humana.

Texto escrito por Cláudio Sinoti, no livro Refletindo a Alma. Postado dia, 02/07/14.

A BUSCA DO SIGNIFICADO
 

O sentido profundo da vida humana é a busca do significado, a plenificação do Self – a imago Dei – a substância divina que orienta a existência e a dignifica. 

Ninguém, de consciência, passa pela Terra, sem um sentido existencial que ultrapasse as necessidades imediatas, que não atendem as exigências emocionais, logo que são vivenciadas. 

Por isso, a vivência interior torna-se de grande significado, sem ela as realizações exteriores perdem o significado, porque passam a ser possuídas sem atender as exigências emocionais, que, quando não resolvidas, trazem o vazio existencial. 

Nessa viagem interna, que como uma aventura interior, a consciência cresce ao infinito, indo além dos limites habituais limitados aos desejos do ter e do prazer. 

Quase sempre, essa busca profunda apresenta-se na criatividade da arte ou na dedicação a crença religiosa, como instrumentos possíveis para a conquista do infinito e do indefinível.
 
Adormecidos no mais profundo do inconsciente coletivo essas duas aspirações originadas na fase primária da evolução, quando o homem começou a compreender a grandeza e a beleza da vida e suas ameaças contínuas presentes na Natureza, e a entrega às forças desconhecidas que pareciam dominar-lhes os destinos, permitindo o surgimento do mito religioso, como mecanismo de fuga das angústias e perturbações, atendendo aos caprichos que se impunham como soluções imediatas. 

O esforço desse ser primitivo em comunicar-se com o outro e desenvolver a consciência através da escrita e da pintura rupestre, são as primeiras expressões da criatividade e do processo de comunicação consciente, organizada, que permanecerão na sua caminhada antropológica. 

A vida humana sendo a materialização do mundo cósmico, os Espíritos desencarnados naquele tempo,  sem noção da sua realidade, ao manifestar-se aos contemporâneos no interior das cavernas, iniciaram as primeiras expressões do culto religioso, sem o desejarem, tornando-se deuses bárbaros uns e gentis, benévolos outros, que povoariam o imaginário das gerações sucessivas, inscrevendo-se no panteão de todas as culturas terrestres. 

Reavivar essas imagens e decodificá-las é a proposta da psicologia profunda, tirando-lhes a sombra perniciosa e ameaçadora da tradição, de forma que, em estágio de consciência lúcida, conquistem o seu verdadeiro sentido, o da imortalidade. 

Porque no primarismo não se permitia o raciocínio logico, o culto natural de respeito e de devoção, mas pelo temor do que pelo amor revestiu-se do mágico, do imaginoso, do sobrenatural, necessitando das excentricidades que se tornaram complexas em forma de cerimonias e de sacrifícios, inclusive humanos, para depois, de natureza animal irracional e, por fim, vegetal, por meio das flores, como preito de amor e de gratidão, de respeito, de súplica... De tal maneira o inconsciente ficou sobrecarregado do fetiche criado e transferido de uma para outra geração que, mesmo na fase do discernimento, continuam as heranças dominadoras, levando ao medo, ao respeito exagerado, às fugas para livrar-se da culpa, resgatando-a com oferendas e sacrifícios... 

O mergulho interior, desmistificando essa miscelânea de condicionamentos e atavismos de natureza mágica, contribuirá para o encontro com a religiosidade real, esse sentimento engrandecido que é a identificação com a imago Dei, com a manifestação de Deus. Certamente, não será o deus antropomórfico – arquetípico, não real – portanto, humanoide, caprichoso, mítico, mas aquele que é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Esse conceito está perfeitamente identificado com a definição apresentada pelo filósofo holandês Baruc Spinosa, quando diz que Deus é a natura naturans. 

Desse modo, Deus está além de qualquer conceito que o limite e o transforme em conteúdo, quando, pela Sua indecifrável realidade, é o Continente que tudo envolve. 

A viagem, portanto, de caráter religioso, deságua no sentimento de religiosidade, de encontro com o divino que se encontra no Si-mesmo, aguardando compreensão e vivência da sua realidade, além de qualquer tipo de culto externo ou de submissão temerária. 

Nessa incursão, a mente sutiliza-se e descobre significados desconhecidos que dão motivações à existência para ser vivenciada com alegria e irrestrita confiança nos resultados futuros. 

Ao invés de significar uma fuga, uma transferência da imagem do pai para a Divindade, representa o encontro com a Consciência universal, com ela identificando-se e tentando plenificação. 

As várias maneiras de realizar a religiosidade mediante a fé, a abnegação, a concentração nos postulados da vida, na prece, na integração solidária nos serviços de beneficência e de caridade, dão sentido à existência física, enriquecendo-a de alegria e de bem-estar pelo prazer de contribuir em favor da satisfação geral, da diminuição do sofrimento, da miséria, das necessidades que assolam em toda parte... 

Imediatamente a criatividade, nesse momento, também se expressa grandiosa, numa explosão de imagens que necessitam de ser exteriorizadas, dando lugar à arte que se transforma em poderoso recurso de beleza, traduzindo as fixações que se encontram no inconsciente, transitando das formas grotescas ao classicismo e chegando às profundas manifestações do modernismo, do cubismo, do surrealismo, do abstracionismo, porque não podem, na pintura, na música, na escultura, por exemplo, ficar contidas no reduzido das formas... Todo limite que se lhes imponha, impede-lhes a expansão, a libertação dos abismos do inconsciente coletivo.  

Em todo período de crise, de indecisão e de perda de significado existencial da sociedade, ocorrem mudanças, algumas radicais, em relação ao já experienciado, ao conhecido, em forma de ânsia de libertação das imposições castradoras anteriores. 

Nesse processo inevitável da evolução, todo um expressivo número de artistas conseguiu quebrar os limites impostos pela tradição, para alcançar o além das formas definidoras de conteúdos. Isso se tornou possível em razão da viagem interior que foram convidados a fazer, após sentirem-se saturados pelo já apresentado, que as modernas conquistas da tecnologia poderiam fazer de maneira perfeita, em cópias iguais, portanto, sem necessidade da sua contribuição pessoal. 

Os mais audaciosos detiveram-se, a princípio, rompendo os velhos padrões, no realismo e no impressionismo, para depois darem o grande salto em novas concepções que desvelam o inconsciente de cada qual e abrem campo a novas observações numinosas e psicoterapêuticas libertadoras. 

Por intermédio de algumas dessas expressões artísticas, especialmente a pintura, a escultura, a música, pode-se penetrar nos conflitos dos pacientes e, utilizando-se de recursos curativos algo semelhantes, trabalhar-lhes as causas dos transtornos de conduta e de emoção. 

Com essa modificação na arte, particularmente na pintura, mais tarde em outros ramos culminando na música, na escultura, na literatura, no balé, nos mais diversos ramos do conhecimento, as denominadas realidades objetivas cederam lugar aos conteúdos metafísicos e transcendentais, ampliando as conquistas do pensamento humano sem limite nem forma... 

Graças a essa aventura em direção ao interior, ao inconsciente, a arte se transformou em um fenômeno místico, quase religioso pelo seu significado libertador, sem qualquer vínculo com denominação, mas dirigido à imensidão do Cosmo e da vida. 

Proibidas essas expressões durante o período religioso dominador e restritivo, todas as imagens que vinham desde a remota antiguidade, porque herança do primarismo, os artistas conseguiram romper com os cânones do denominado estático, belo, harmônico, convencionalmente aceitos, demonstrando outras expressões de significados idênticos, de acordo com a visão e a percepção de cada criatura.

O inconcebível pode ser externado de maneira própria, favorecendo a identificação de novos padrões de beleza. 

O que antes era tido como arte moderna de tal maneira se impôs tornando-se natural, que já não se atém às admiráveis expressões sob essa ou aquela denominação, estando presente na condição que lhe é própria, de arte reconhecida e aceita. 

O observador consciente e sincero, diante de alguma dessas expressões que romperam com o tradicional, identifica-se além da forma, em mensagens subliminais ou diretas, auxiliando-o a melhor entender-se, decifrar-se, em face dos padrões que o limitavam e lhe dificultavam a autocompreensão, atormentando-o e alienando-o... 

Ela provoca, de inicio, um choque, pela estranheza de que se reveste, em qualquer um dos seus aspectos, na variedade de expressões em que se manifesta, para logo, à medida que a atenção a focaliza ou a recebe, produz a identificação do inconsciente que libera informações e faculta a aceitação natural dos seus conteúdos, porque se encontram também nele mesmo. 

Costuma-se dizer que a maioria da arte contemporânea, expressa angústia, dor, sofrimento, discórdia, luta, o que, de certo modo, é verdade, porquanto, representa a visão da jornada longa da evolução e reflete a realidade existencial, muitas vezes disfarçada pela hipocrisia ou oculta pelos denominados multiplicadores de opinião. 

Observemos Guernica do espanhol Pablo Picasso e identificaremos a tragédia do bombardeio aéreo sobre a cidade infeliz e a degradação que tomou conta de tudo. 

De igual maneira, O Grito, do norueguês Edvard Munch, expressa nessa figura andrógena toda a sua angustia, resultante de uma infância infeliz, de insucessos afetivos, da visão tormentosa de um entardecer de sangue e de fogo, que ele tentou expressar em o Desespero, sem o haver logrado integralmente, o que conseguiu, logo depois, na outra obra que ficou imortal... 

Enquanto a ciência dirige-se ao intelecto e a reduzido numero de indivíduos, a arte, em face das suas expressões, é mais abrangente, sendo aceita por todos, não importando o nível de cultura ou de sentimento, ou de consciência em que se encontre, porque sempre traduz o que se passa no mundo interior dos seus autores, expressando a mesma ocorrência naqueles que se lhe vinculam. 

Esta é também uma forma de enfrentamento com o inconsciente, no que o insigne mestre Jung denominou como a luta mítica contra o dragão, na representação tradicional de S, Jorge, o vitorioso, o herói. Nada obstante, essa é uma luta antiga realizada pelo Espirito que tem necessidade de superar os impedimentos da matéria em que se ergastula durante o processo da evolução, para desvelar as potencias nele adormecidas, o seu deus interno. 

O divino em cada luta inevitavelmente contra o humano, a força transcendente em alerta contra o poder do animal ególatra e escravizador. 

Pode-se dizer que se trata de um esforço imenso esse emergir da escuridão da ignorância para a claridade do discernimento e da razão. É a autoconquista realizada pelo Self cuja trajetória é interior. 

 A falta de sentido existencial, portanto, de significado, gera transtornos neuróticos muitas vezes confundido com outros motivos que seriam os responsáveis pelo desequilíbrio. 

Assim, a conquista de objetivo, de um significado básico para a existência é fundamental para o equilíbrio do eixo ego-Self. 

Na atualidade generaliza-se essa problemática, definida por Jung, já, no seu tempo, como a neurose geral do nosso tempo, em razão da constatação da inutilidade a que cada indivíduo se atribui tonando-se quase invisível no meio social onde se encontra. 

Texto trabalhado com base no livro EM BUSCA DA VERDADE, escrito por Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.

Postado no dia 02/07/2014.

DIGNIDADE E GRATIDÃO 

O eminente psicólogo Abraham Maslow,  na apresentação da sua pirâmide demonstrativa da autorrealização,  busca estabelecer uma hierarquia das necessidades humanas, começando pelas  fisiológicas, aquelas de preservação da vida como alimento, água, oxigênio, etc. Conforme Maslow o ser humano, vai estar sempre lutando para atender essas necessidades fundamentais, num processo de seleção em diferentes níveis até atingir o nível das experiências limites, sendo este o clímax do processo de amadurecimento psicológico saudável, portanto ideal.

Nessa imensa busca, toda e qualquer experiência torna possível novas conquistas, depojando-se de umas avançando para novas ou outras necessidades que abandonam o plano físico para se transformarem em anseios emocionais e idealísticos superiores.

Também, o dr. Frankl, considera a proposta do significado existencial de maior importância, considerando que, atingido um patamar de autorrealização em uma área, o indivíduo pode se encontrar incompleto em uma outra, quando, porém, quando se liga a um sentido psicológico, o crescimento interior torna-se mais fácil dirigindo-se à conquista da individuação.

Epicuro diz que

“ As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo .”

Na atitude epicurista, o humano mantém a sua meta existencial, agradecendo tudo que vivenciou no passado e que são agora a base das alegrias atuais, conquistando assim coragem para novos  enfrentamentos, certo da conquista da beleza, da ética, da harmonia.

No começo ele busca conseguir vitória sobre as dores físicas, depois percorre o caminho da coragem frente aos insucessos emocionais, morais e outras vicissitudes, numa atitude hedonista que lhe possibilita alegrias contínuas e visão antecipada do abençoado através da superação dos acontecimentos que fazem sofrer.

Esse tipo de atitude envolve-se, de dignidade, valor moral que enriquece os que são fiéis aos princípios do dever e da honra.

Podemos dizer ainda que a dignidade resulta das conquistas éticas vindas dos comportamentos que encontram-se na justiça, na honradez e na honestidade.

A conduta digna é sempre a mesma, vigorosa e forte, que suporta a zombaria dos pigmeus morais, não se submetendo ao desconhecimento proposital imposto pelos servos da ignorância e promotores das situações infelizes.

Grande número de desfrutadores das oportunidades mundanas sem nenhuma responsabilidade de impusionar o progresso, sorrindo sempre e parecendo felizes nos carros alegóricos das fantasias, acabam vitimas da síndrome da ansiedade esquiva, que os leva aos conflitos muito graves, especialmente porque tentam disfarçar os medos e as angústias que lhes sitiam o self, sem caráter moral para o autoenfrentamento, do que conquistaria o equilíbrio emocional.

Pascal dizia com sabedoria que “A nossa dignidade consiste no pensamento. Procuremos, pois, pensar bem. Aí se encontra o princípio da moral “.

Fica claro, que todas as construções começam no pensamento, elaborando ideias, na área psicológica. Quando  se busca o desenvolvimento dos tesouros morais, o pensamento cresce em corretas elaborações, aquelas que promovem o bem, abrindo espaço para a conduta moral.

Com esse comportamento que é psicoterapêutico preventivo por evitar muitos transtornos, o ser amadurece emocionalmente, se dispondo a enfrentar situações desafiadoras com coragem e ética, nunca utilizando expedientes censuráveis para conquistar as metas que busca.

Definindo os caminhos da arte de pensar, imediatamente se desenham também os caminhos de como proceder bem, contribuindo decisivamente para o bem geral.

Fica fácil entender que é preciso o comportamento digno, construído por pensamentos e as ações saudáveis, incluindo o sentimento de gratidão que envolve tudo em vibrações de afeto. Sem essa afetividade que discerne os significados existenciais e os bens vindos da experiência humana, iria desaparecer o sentido psicológico que a caminhada propõe.

O homem e a mulher gratos são elementos decisivos na estrutura da sociedade, que se valoriza e engrandece, quando é composto por seres que  dignificam a sua condição de humanidade.

O ingrato, por sua vez, torna-se patológico no grupo em que vive, no conjunto social e em todos os grupos onde se movimenta.

 A sua presunção e conflitos, junto às tendências perturbadoras da inferioridade, estimulam a decomposição do organismo geral, em que se encontra, como uma planta parasita devastadora, que surge frágil e acaba destruindo o cavalo em que se hospeda...

A educação firmada em princípios de dignidade estatui a gratidão como norma de conduta saudável, sem ela se torna difícil, senão impossível, a estruturação de um conjunto humano equilibrado.

Velho hábito vicioso instala-se nos indivíduos desde a infância, que é o de receber dádivas e não as valorizar, sempre visando o preço, a grife, a aparência, como se fosse credor dos sacrifícios dos outros, sem considerar o que recebem, não demonstrando nenhuma gratidão. Essa conduta egotista trabalha pela indiferença afetiva dos demais, que passam a desconsiderar esses ingratos, deles afastando-se e vacinando-se contra o hábito superior da gratidão... Muitas são as pessoas que, após desconsiderar esses insensatos rebeldes e cheios de si, desanimaram-se nos propósitos de bem servir e de ajudar, temendo as recusas, os humores negativos, passando a cuidar dos seus próprios interesses apenas.

Aquele que age dessa maneira, valorizando ingratidão dos doentes espirituais, ainda não sedimentou o sentimento nobre, estando em experiência, em exercício, esperando resposta favorável ao seu gesto. É natural que assim aconteça, já que ninguém atinge o acume de um monte sem começar a caminhada pelas suas baixadas...

Conforme ocorra o amadurecimento psicológico e a dignidade vai alcançando níveis mais elevados de emoção, nada diminui o comportamento honorável nem o sentimento gratulatório.

Um  certo executivo como hábito adquirir o jornal do dia, depois do expediente, em uma banca em frente ao edifício onde trabalhava. Sempre que pedia ao responsável o jornal, ele jogava-o com mau humor na sua direção, e o executivo retribuía o gesto infeliz com palavras de gratidão.

Um dia, um homem que trabalhava junto e que se cansara de ver a cena desagradável, perguntou ao cavalheiro:

- Por que o senhor volta sempre a comprar o jornal na banca desse indelicado, que sempre o trata mal?

Após pensar um pouco, o gentil-homem respondeu:

- Por questão de princípio. Eu me impus a tarefa de não permitir que a sua grosseria me fizesse fugir ou me tornasse deseducado e igual a ele, já que sou muito grato à vida por tudo que me tem favorecido.

O mal não afeta o bem, que lhe é o antídoto.

Continuar na conduta correta, mesmo quando ultrajado ou desconsiderado, passa a ser desafio da saúde moral no comportamento social, a fim de o modificar, trabalhando na construção de uma nova mentalidade, que se há de estabelecer entre todos no futuro.

Texto trabalhado do livro PSICOLOGIA DA GRATIDÃO, escrito por Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.

Postado no dia, 02/07/2014.